Preconceito? Interesse? Inadvertência?

Preconceito? Interesse? Inadvertência?

Alvaro Siviero

01 de agosto de 2014 | 11h56

Brasileiro tem sangue e ritmo nas veias, musicalidade natural que, quando encontra disciplina e dom artístico, gera músicos promissores. Isso não é elogio, é fato. A pianista argentina Martha Argerich disse, certa vez, que o futuro da música de concerto está na América do Sul, no sangue “latino”, na alegria de viver. Há muita gente boa no mercado nacional. Gente séria, competente. No entanto, as oportunas colocações de João Luiz Sampaio em “Cosmopolitismo ou Jequice?” (leia aqui) e João Marcos Coelho em “Um brinde aos Sísifos brasileiros” (leia aqui) jogam luz em uma triste realidade basal.

Curiosamente, para surpresa de alguns, lá fora, no “estrangeiro”, o quadro não é muito diferente: pensa-se igualmente que a grama do vizinho é sempre a mais verde. O que todos os artistas buscam, em realidade,  é de um lugar ao sol, de reconhecimento, mesmo que de modo desajeitado e errante, o que não deixa de ser um perigo. A busca mal entendida de sucesso pode confundir a legítima missão de ser músico com um desejo desenfreado de visibilidade, de sucesso, de sentir-se prestigiado e querido: uma espécie de carência afetiva artística, mixada com fama, glamour e desejo de poder. Nesta hipnose, as regras pouco claras deste jogo desdobram-se em um mar comportamental sem margens: músicos convidados em regime troca-troca (eu te convido para você me convidar), vínculos comerciais com managers e agências que vinculam convites a uma panelinha, artistas mais ou menos conscientes de seu despreparo que ocupam posições de chefia por laços de amizade (nada contra a amizade quando há competência). Confunde-se arte com exibicionismo. E a cultura se transforma em negócio.

Insisto: há muita gente, muito boa, no mercado. Talentos não noticiados pela grande mídia mas que causam furor por onde passam neste mundo afora. O pianista Eduardo Monteiro, carioca da gema, é um deles. O respeitado, atuante e impecável spalla do Theatro Municipal de São Paulo, Pablo de León, que acaba de retornar dos USA como professor do Jasha Heifetz Symposium é outro (faz poucos dias apresentou-se no Royal Albert Hall, em Londres, sob a batuta de Valery Gergiev). O respeitado pianista Arnaldo Cohen, exímio, encontra mais espaço fora do que dentro. Hoje, Sonia Racy relembra-nos outro nome: Flavio Varani (leia aqui). E tantos outros que, impossível citar o nome de todos, acabam não ganhando a merecida e real visibilidade, talvez por não jogarem o jogo da ambição, por estarem mais focados no que realmente interessa: sua arte. Chamou a atenção o fato de que a 16° edição do célebre Concurso Chopin, realizado em Varsóvia, não deu seu primeiro lugar ao pianista russo revelação do momento Daniil Trifonov. Ele ficou em terceiro lugar. Pedigree na música é importante, mas não necessário. O necessário é ter qualidade.

Ouve-se, com certa frequência, a frase: “Quem é esse “cara” que vai se apresentar? Ele não é conhecido…”. Pois bem, vá e o conheça. A única forma de conhecimento é ir em direção ao desconhecido. Uma experiência existencial renovadora. Figuras carimbadas dos chamados “queridinhos” coloca em detrimento novos valores musicais, oferecendo-se ao grande público eventos que, menos pelo interesse artístico, movem-se pela segurança da bilheteria. Óbvio que não existe agenda ou espaço para que todos sejam chamados sempre e a todo momento. Mas a dança das cadeiras bem que podia ser um pouco mais democrática.

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