Os últimos acordes para a inauguração da Cecília Meireles

Os últimos acordes para a inauguração da Cecília Meireles

Alvaro Siviero

02 Dezembro 2014 | 10h22

Cecília Meireles 1

Após aproximadamente 4 anos, a Sala Cecília Meireles está de volta. O casarão do século 19, nascido como mercearia, que já foi hotel e até cinema, sobrevive como palco da música de concerto nacional há 50 anos. Desde seu início, em 1965, nos festejos dos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, o espaço correu até risco de demolição, em 1977, quando o sistema viário pretendia ampliar as vias de acesso ao bairro. Graças a manifestações contrárias de artistas e intelectuais, entre eles Carlos Drummond de Andrade, o feito foi barrado. Durante esses anos, pequenas – e não tão pequenas – obras de manutenção – a construção do auditório Guiomar Novaes para atender demandas culturais de cunho mais intimista, melhorias na acessibilidade, o aumento do foyer, obras de nivelamento do palco, entre outros – conviviam com as atividades artísticas em esforço combativo por seus dirigentes. Hoje é patrimônio tombado, em ação conjunta estadual e municipal.

Cecília Meireles 2

Mas sabe aquela sensação de que, mais do que lavar as mãos, ou de utilizar-se de um desodorante, o que se precisa, de fato, é de um bom banho? Foi isso o que ocorreu. A abertura do frontão da fachada principal foi transformada em ampla janela panorâmica, foram instalados toilettes em todos os andares, completa revitalização do projeto acústico que trará à sala o máximo de perfeição sonora, instalação de elevadores e rampas de acesso de total acessibilidade, entre outros. Outra novidade da reforma é a bomboniére do primeiro andar e o Café da Sala, que funcionará no segundo piso atraindo um novo público e ainda possibilitando uma permanência maior de seus visitantes para um aperitivo antes ou depois de concertos e programações. Surpreende, em clara atitude de resgate, os trabalhos de restauro que recuperaram a antiga fachada lateral do que foi o Grande Hotel. As paredes de pedra maciça, envolucradas em madeira, devoradas por cupim, exigiram a contratação de uma empresa especializada que cortou grandes blocos de pedra com lâminas de diamante. A estrutura total do prédio foi reforçada. Lajes foram refeitas. Não sobrou pedra sobre pedra. “Eu diria que a sala está preparada para os próximos 50 anos”, afirma o diretor João Guilherme Ripper. “O auditório Guiomar Novaes transformou-se em espaço multiuso, totalmente remodelado, seu palco foi retirado, as cadeiras não são mais fixas, instalamos diversos recursos como cabine de luz e som. Os 3 andares do espaço ganharam rampas e elevadores. A transformação compreendeu tanto o lado social, acústico e físico. Foi completa”, complementa o diretor.  A chefe de divisão artística, Mônica Diniz, reforça e complementa a visão de Ripper ao declarar que “tudo foi resultado de um trabalho conjunto, em equipe. Estamos muito felizes”. Já tive a oportunidade de me apresentar nesta sala. Conheci muitos de seus meandros. No início deste ano visitei as obras e pude comprovar a completa reestruturação pela qual passava o edifício. Grata surpresa foi saber que o painel acústico do fundo do palco, que se transformou em marca registrada da sala que faz música de qualidade, será mantido. Um valor afetivo para muitos.

Imprevistos na obra, como acima citados, geraram atrasos de finalização. Houve, além disso, momentos em que a obra chegou a ficar parada e equipes de operacionalização tiveram que ser substituídas. O custo final da obra chegou à casa dos R$47.5 milhões de reais.

Cecília Meireles 3

No próximo dia 11 de dezembro, a Sala que abriga em sua estrutura música de câmara, sinfônica, vocal, jazz e MPB, será oficialmente reinaugurada com um evento para convidados em concerto para voz e piano de canções com poesia de Cecilia Meireles, os presentes terão a oportunidade de reviver um pouco do que foi a inauguração deste espaço, faz 50 anos, onde Maria Fernanda, filha de Cecília Meireles, declamou textos da poeta ao lado de Paulo Padilha. Neste ano cabe a Luisa Francesconi (mezzo-soprano), Homero Velho (barítono) e Priscila Bonfim (piano), sob a direção cênica de André Heller-Lopes, resgatar o tempo. 

 

Em tempo:
Neste mesmo ano, em efeito inverso, o Teatro Nacional Claudio Santoro fecha suas portas. A decisão do Ministério Público do Distrito Federal, do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, exigiu o cumprimento de 144 itens para que o Teatro possa ser reaberto e entregue a população. Um grande projeto foi elaborado buscando não somente o cumprimento das cláusulas exigidas, mas uma reformulação geral, não somente de sua parte acústica, mas também no redimensionamento das 3 salas (Villa-Lobos, Martins Penna e Alberto Nepomuceno). Concluídas as obras, será um dos principais Teatros do Brasil. Mas fica a pergunta: qual o motivo do fechamento deste teatro por todo ano de 2014, se as obras não se iniciaram e, sobretudo, se nem sequer existe licitação para a reforma pretendida?  O novo Governo do DF, em seu compromisso com a população local, tem este desafio:  ser sensível à defesa e preservação deste patrimônio cultural. Vamos acompanhar.