Os perigos da ansiedade com a crítica

Os perigos da ansiedade com a crítica

Alvaro Siviero

01 de agosto de 2016 | 11h21

pessoas a bater palmas

Como ninguém é perfeito – inclusive os críticos – o desejo de perfeição e de agradar a todo mundo o tempo todo é prejudicial. Melhor dito, não faz sentido. É sabido que as preocupações com o passado geram depressão, com o presente geram estresse e, com o futuro, uma ansiedade destruidora. Medo de uma doença, do medo de fracassar no trabalho, nos estudos, no casamento, de perder a pessoa que amamos, de não encontrar um verdadeiro amor, de não ter a aceitação ou a popularidade que desejaríamos, de ficar parado numa via morta, de marcar o passo de uma vida monótona sem horizontes, de ser abandonados, de envelhecer, de morrer… Como afirmou o escritor alemão Wasserman, “as preocupações são a grande epidemia do século atual”. George Crile, experiente cirurgião norte-americano, foi além: “qualquer que seja a causa do temor e das preocupações, o certo é que se podem notar os seus efeitos nas células, nos tecidos e nos órgãos do corpo”. O medo do fracasso gera o fracasso.

Faz poucos dias, em animada conversa, uma pessoa comentava sobre seu recém adquirido Certificado de Proficiência em língua inglesa pela Universidade de Cambridge, explicando algumas gírias, expressões pouco usuais e nos divertíamos um bocado. De repente uniu-se à conversa um native speaker, americano na cidade de Boston. E o inglês fluente e seguro daquele meu amigo desapareceu. A insegurança venceu o conhecimento. Mais tarde ele me confessou: “eu estava mais preocupado com o conceito que o Matthew faria do meu inglês do que com a conversa em si”. Bingo. É isso aí. O medo da crítica e das expectativas bloquearam os pensamentos e a ação. Um medo que desmoraliza, gerado por uma inquietação que, além de não eliminar o perigo que receava, o antecipou.

O artista é um daqueles poucos profissionais existentes – talvez o único atualmente – que, terminado seu trabalho, recebe aplausos. Não vejo mães heroicas sendo aplaudidas por seus filhos. Não vejo engenheiros, advogados, médicos que salvam vidas sendo aplaudidos após a finalização de seu trabalho. Muitas vezes não vemos nem um “muito obrigado”.  Pilotos de voos internacionais, até pouco tempo atrás, eram aplaudidos. Agora não mais. Pergunto-me: e se os artistas também deixassem de receber aplausos?

Os aplausos em um teatro refletem, sempre, a alegria que tomou conta da plateia, o entusiasmo provocado pela experiência estética. Uma espécie de reação incontida diante da Beleza da arte, que se traduz em sorrisos e, em alguns casos, a querer ficar de pé, com os olhos marejados. No entanto, seria ingênuo entender essa comoção como um reconhecimento ao artista. O reconhecimento e os aplausos são para o momento que está sendo vivido. Lembro-me de um pai de família que, após comunicar aos filhos e à esposa a surpresa da próxima viagem internacional à Disney, presenciou uma estrondosa ovação de todos: aplausos, berros, abraços. Uma alegria só. É verdade que, sem o pai, a viagem não seria feita. Mas igualmente verdade que, sem a mãe, os filhos não existiriam. E sem a Disney, não haveria a viagem ao Magic Kingdom. O mesmo ocorre com o sucesso de um espetáculo, que se deve a muitos profissionais – muitos deles em trabalho escondido – e que merecem igualmente aqueles aplausos por terem dedicado suas vidas a encantar a vida das pessoas. E é esse encantamento que merece ser aplaudido.

Não somos melhores por nos elogiarem. Não somos piores por nos criticarem. Somos o que somos.
Menos neuroses, e mais alegria!

 

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