Orquestra Sinfônica Municipal de Santos: desafios que encontram solução

Orquestra Sinfônica Municipal de Santos: desafios que encontram solução

Alvaro Siviero

04 de maio de 2014 | 18h37

Cada um colhe o que semeia, seja o bem, o mal ou a omissão. É assim mesmo. É só uma questão de tempo. Essa verdade, válida para tudo na vida, é igualmente aplicável ao setor cultural. Quem investe recebe retorno. Simples assim. Dirigentes culturais alinhados a esta visão, enxergando cultura como investimento (não é despesa), em pouco tempo recebem massivo retorno. A experiência mostra isso.

Conheci melhor o trabalho da OSMS – Orquestra Sinfônica Municipal de Santos faz alguns dias, apresentando o Concerto n.2 de Rachmaninov. A máxima, acima exposta, veio-me imediatamente à cabeça: foi assim que surgiu este grupo sinfônico, após bem sucedida apresentação ocorrida já faz quase 20 anos, em julho de 1995, com apenas 16 músicos. A semeadura do passado dando frutos no presente. O êxito absoluto daquela primeira apresentação, já faz quase 20 anos, rapidamente moveu autoridades competentes que entenderam a necessidade de investir solidamente na estruturação do grupo sinfônico. “Nessa trajetória de quase 20 anos, conseguimos realizar muitos sonhos. Fizemos óperas, concertos, festivais, ganhamos o Teatro Coliseu, recebemos solistas maravilhosos, coros e, acima de tudo, conquistamos o enorme carinho de um público fiel”, afirma o maestro Luís Gustavo Petri (foto acima), fundador da OSMS e que, desde então, é seu regente titular. “A existência e continuidade da OSMS deve-se à competência e persistência do maestro Luís Gustavo Petri”, afirma o zeloso Raul Christiano de Oliveira Sanchez, atual Secretário de Cultura da cidade, com quem extensamente pude conversar (foto abaixo, em pleno trabalho no Teatro Coliseu). Homem seguro, de ideias claras e bem intencionadas, Raul Christiano é jornalista, escritor, poeta, especialista em políticas públicas e professor universitário. Um homem do ramo. A pessoa certa.

Dando volta a estes pensamentos, com a partitura na mão, enquanto perambulava pelos corredores do teatro antes do início do ensaio, procurei conhecer o material humano da orquestra. Essa é a alma de qualquer instituição: as pessoas, o recurso humano. Vi gente atenciosa, que se orgulha em servir. Entrei em tudo. Olhei para tudo. Conversei com quem pude. Tirei conclusões.

– A OSMS possui um regente titular comprometido, gestor, conhecido no mercado musical e de grande experiência artística. Atualmente assessor musical do Theatro Municipal de SP, Luís Gustavo Petri já esteve à frente de diversas orquestras nacionais, como a Municipal de SP, OSESP, OSPA (Porto Alegre), OSP (Paraná), OSB (Brasileira), Filarmônica de Manaus, dentre outras, além de sua experiência internacional. Recebeu vários prêmios por seus trabalhos como compositor e diretor musical, entre eles os prêmios Shell, APETESP e APCA.

– Possui um regente-assistente, José Consani, igualmente comprometido com o crescimento da OSMS. Profissional pró-ativo, repleto de ideias e de senso prático, é sólida interface não somente para o artístico, mas para toda parte operacional do grupo. Não são todas as orquestras que contam com um profissional neste setor.

– A elegância do Teatro Coliseu foi outro fator que me surpreendeu. Localizado no coração da cidade, com história iniciada ao final do século XIX, após sucessivas reformas e reinaugurações, possui hoje platéia com 347 poltronas; 27 frisas; 48 camarotes; 80 poltronas do balcão; 193 galerias e anfiteatro com capacidade para 110 lugares. O teatro acomoda 1.000 espectadores. Iluminado por 39 majestosos lustres, o edifício é tombado.

– O principal jornal da cidade A Tribuna, cobriu o evento com extremado interesse, preparo e profissionalismo. Repórteres que faziam as perguntas certas às pessoas certas indicavam o pulsar cultural desta cidade, contada entre as 20 mais ricas do país. Uma grande quantidade de público afluía ao teatro. Faço aqui um mea culpa: eu mesmo não sei se teria saído de casa numa noite fria e chuvosa como aquela. Os concertos – outro ponto positivo – são gratuitos.

Esta lufada de ar oxigenado na vida cultural da cidade, no entanto, depara-se com algumas dificuldades, facilmente transponíveis. Uma delas, já solucionada, refere-se à ausência de um dia fixo para as apresentações. “É muito difícil criar um público estável e tradição se não há regularidade”, afirmou Aparecida Carbonari, moradora da cidade e amante da música de concerto. “E daí com menos pessoas presentes acabam achando que não há interesse. Isso não é verdade”, concluiu o marido Roberto. Para a Temporada 2014 haverá um concerto mensal, sempre às últimas quintas-feiras do mês, com entrada gratuita. Exceção aos meses de novembro (concerto no dia 20/11) e dezembro (18/12), todas elas no Teatro Coliseu. Cada concerto, com todos os gastos envovidos de produção e artísticos, desembolsa, aproximadamente, R$150.000,00, valor esse inferior ao salário mensal de alguns dos regentes de outras orquestras municipais. O salário de um músico tutti na OSMS é de, aproximadamente, R$1.700,00.

Outro desafio refere-se, além do aspecto salarial e contratual dos 42 músicos integrantes, ao crescimento artístico do grupo. A empreitada, hoje enfrentada por diversas orquestras nacionais, encontrou no formato OS-Organização Social a solução para os obstáculos de flexibilidade, capacidade artística, contratação e promoção enfrentados pela OSMS. “Já tomamos todas as providências e levei ao Conselho Municipal de Cultura a criação de uma Organização Social para gerir a orquestra. Já tenho o OK do Conselho de Cultura”, afirma de modo entusiasmado Raul Christiano. “Em um prazo de 90 dias tudo já estará implementado”, conclui. “Nossa orquestra tem se apresentado regularmente em outros municípios, em um trabalho de democratização, além de apresentações que já realizamos na Sala São Paulo e no Festival de Campos do Jordão”, complementa. Outras orquestras, estruturadas como Fundação, hoje gozam de reconhecimento, estabilidade de trabalho e solidez de corpo artístico: um músico de fileira que atua em Minas Gerais tem como salário base, aproximadamente, R$ 9.600,00 enquanto na Osesp o valor é de, aproximadamente, R$ 14 mil – incluído ajuda de custo e seguro dos instrumentos.

Sendo assim, o segundo semestre da orquestra promete ser festivo. E assim deve ser. Afinal de contas em 2015 serão celebrados seus 20 anos. Um ano de festa. E festa sem boa música não existe, não é?

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