Orquestra Sinfônica de Campinas: novos e sólidos rumos

Orquestra Sinfônica de Campinas: novos e sólidos rumos

Alvaro Siviero

28 de março de 2014 | 00h14

Maestro Victor Hugo Toro

 

Orquestras criadas pela adesão e iniciativa popular são promissoras. Seu nascimento natural, espontâneo, comprova o saber popular de que a voz do povo é a voz de Deus. E com Deus não se brinca. Por outro lado, iniciativas “de cima para baixo”, impostas por políticas culturais artificiais, tendem a desaparecer.  É só uma questão de tempo. É assim que penso. E é assim que a experiência se revela. Políticas culturais corretas são aqueles que servem a cultura e a identidade de um povo, dando-lhe corpo, continuidade e crescimento. Falo de políticas culturais, não de interferência da política na cultura, algo sempre desastroso.

Aqui em Campinas, onde me encontro para apresentações com a Sinfônica da cidade, enxerguei feito vida o que descrevo acima. Explico-me. Chamou-me a atenção o amor com que a população – desde um vendedor a uma dona de casa, passando por acadêmicos e gente jovem – fala da “sua” orquestra, com um sentido de posse que emociona. Chama igualmente a atenção o saudável orgulho com que os campineiros citam o nome de seu conterrâneo Carlos Gomes como ícone da música de concerto brasileira. Pura verdade. No entanto, após tantos anos de excelência e intensa vida musical, chamava-me a atenção o repentino e contínuo processo de desaparecimento da OSMC – Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas do cenário musical nacional, daquela que foi referência durante a década de 80. Fui à labuta: visitei a sede administrativa da OSMC, conversei com seus funcionários, com o Diretor da Orquestra Rodrigo Morte, com seu regente titular Victor Hugo Toro, com o Secretário de Cultura Sr. Claudiney Rodrigues Carrasco, com a primeira-dama Sra. Sandra Ciocci e com o prefeito Sr. Jonas Donizette. Quero dividir o que comprovei.

Em primeiro lugar, a figura de Carlos Gomes impõe tal respeito que pronunciar seu nome é sinônimo de responsabilidade cultural, um empurrão a sair do comodismo. Vale lembrar – de modo resumido – que foi Manuel José Gomes, pai de Carlos, quem desenvolveu durante 53 anos (1815-1868) uma vigorosa vida musical na cidade, provocando o surgimento de grande número de músicos, bandas e orquestras. Deste esforço surgiu a Orquestra do Teatro São Carlos que, após sua demolição, deu origem ao novo Teatro Carlos Gomes com sua nova Orquestra Sinfônica Campineira (1929), criada pela recém fundada Sociedade Sinfônica Campineira. Em 1974, com o apoio da Prefeitura, surge a atual OSMC. De fato, a música sinfônica faz parte da cultura da cidade. É sua identidade.

O gene musical desta orquestra e de sua história ajudou-a a superar crises que não deixam de impressionar. O maestro Victor Hugo Toro, músico competente e apaixonado pelo que faz, comentava-me, de modo algo divertido, uma dessas crises. Em 2012, ao chegar como maestro convidado diante dos músicos da OSMC para início aos ensaios de apresentações que realizou antes de ser nomeado seu regente titular, não encontrou ninguém do administrativo da orquestra que lhe desse as boas vindas e o levasse à frente dos músicos, como pede o protocolo (e a boa educação). Motivo? Não havia Secretário de Cultura e, consequentemente, não havia staff para a orquestra. Naquele ano, Campinas teve sete secretários de cultura. Isso mesmo: sete! E três prefeitos, todos afastados por corrupção e improbidade administrativa. A abertura de licitação para reparos no Centro de Convivências – conjunto arquitetônico sede da orquestra e fechado por apontar problemas estruturais elétricos e de infiltração – aguardava liberação por parte da Secretaria de Infraestrutura. Mas o efeito dominó nos quadros administrativos da prefeitura, originados por afastamentos de seus prefeitos, engavetava uma tomada de decisão. Os anos se passavam. O atual Diretor da Orquestra, Rodrigo Morte, é claro em sua declaração: “Assumimos no início de 2013, depois de um momento de instabilidade política em Campinas, o que afetou muito negativamente a OSMC. Tudo parecia bastante caótico. Enfrentávamos obstáculos básicos para o bom funcionamento do grupo, como a falta de local de ensaio apropriado, falta de materiais, músicos e funcionários desestimulados, entre outras dificuldades. Foi nesse cenário que, ao mesmo tempo em que tínhamos que viabilizar uma temporada anual, iniciava um processo sério de reestruturação, com o objetivo de resgatar o prestígio da orquestra como um dos principais grupos sinfônicos do país, além de elevar o nosso nível técnico e artístico. Ainda há muito trabalho a ser feito, mas sinais de melhora já começam a aparecer. Com o apoio do poder público, pudemos planejar e anunciar antecipadamente a temporada atual, o que representa não só um compromisso com nosso público e com a cidade, mas um restabelecimento de nossa credibilidade junto à iniciativa privada, que, depois de um período afastado, retoma seu relacionamento”.

O atual Secretário de Cultura, Sr. Claudiney Rodrigues Carrasco, homem de opinião e objetivo, é peremptório ao afirmar que a OSMC é um patrimônio cultural: “O Governo do Estado cedeu-nos 80 milhões de reais para a construção de um teatro diferenciado, chamado de teatro de ópera, mas que não tem como finalidade somente a ópera. Para 1250 lugares, deverá ser finalizado em aproximadamente 2 anos e já tem seu projeto arquitetônico finalizado. É de autoria do Carlos Bratke. Receberá o nome de Teatro Carlos Gomes, em atenção ao antigo teatro da cidade, demolido. O governador já assinou o convênio cuja liberação pode ocorrer em uma questão de dias. Essa verba já está conceitualmente liberada, restando somente a formalização de papéis. Abriremos imediatamente a liberação para o projeto executivo.” E continua: “Somos ambiciosos em relação à OSMC: ela é um grande patrimônio da cidade de Campinas. Eu tenho o maior carinho por essa orquestra. Sofri muito nos momentos de dificuldade que passou, quando perdeu muita coisa que havia conquistado, inclusive sua sede”, afirma de modo emocionado. “Quero devolver à orquestra aquilo que ela merece ter”.

O prefeito Sr. Jonas Donizette manifesta, com fatos, seu apreço pelo grupo sinfônico. É um dos que marca sua presença em diversos concertos da OSMC, em declarado apoio ao grupo sinfônico: “A História da humanidade mostra que nações que conseguiram se reerguer, ou se manter por períodos difíceis, apostaram na cultura. Quando assumi minha função, pude perceber que muitas coisas na vida da orquestra estavam fora de lugar. Uma ansiedade gerada por incertezas. Fizemos, então, uma programação de trabalho e destaco o profundo trabalho que o Secretário de Cultura, o Rodrigo (Diretor da Orquestra) e o Toro (regente titular) estão realizando, e que a cidade está se identificando”.  Ao meio da conversa é o próprio prefeito quem toma a dianteira de anunciar uma nova vertente de trabalho da OSMC: concertos didáticos, focado em público jovem, que formará as novas fileiras dos amantes da orquestra e da vida musical de conteúdo.

Chego agora ao hotel. Muitas são as recordações de tantos depoimentos e entusiasmo que, pessoalmente, verifiquei. Sou um homem naturalmente otimista, mas com os pés no chão. O que vi e ouvi hoje, de tantas pessoas diferentes, foi uma exteriorização da verdade das convicções que existe no coração musical de Campinas. A mim resta agora a responsabilidade de ser, nos próximos concertos que farei neste final de semana com a OSMC, um estímulo aos presentes com música de alta voltagem que pretendo fabricar. Depois de tudo o presenciei, acredito que não será difícil.

 

Teatro Castro Mendes

Dias 29 (sábado, 20h) e 30 (domingo,11h)


– ALBERTO NEPOMUCENO
 (1864 – 1920) – Scherzo para Orquestra (1894)

– EDVARD GRIEG (1843 – 1907) – Concerto para Piano e Orquestra em lá menor, op. 16
Allegro molto moderato
Adagio
Allegro moderato molto e marcato – Quasi presto – Andante maestoso
– JOHANNES BRAHMS (1833 – 1897) – Sinfonia n° 1, em dó menor, op. 68
Un poco sostenuto – Allegro – Meno allegro
Andante sostenuto
Un poco allegretto e grazioso
Adagio – Più andante – Allegro non troppo, ma con brio – Più allegro

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