Orquestra do Estado do Mato Grosso: uma festa mais que merecida.

Orquestra do Estado do Mato Grosso: uma festa mais que merecida.

Alvaro Siviero

26 de abril de 2014 | 09h04

 

O erro é nosso. A insistente tentativa de falar sempre do mesmo – as mesmas orquestras, os mesmos artistas, as mesmas salas de concerto, … – nos fechou em uma redoma. Mas o Brasil profundo, desconhecido de tantos, não é uma redoma. Esse é o problema. Como diria um famoso cantor, “há tanta vida lá fora” e alguns somente ficam no ” e aqui dentro, sempre…”. Não é que o mesmo de sempre seja desnecessário. Ele é até importante. Mas ele não é único.

Amanhã, dia 27 de abril, às 17h, no Auditório Ibirapuera, em concerto aberto e gratuito (eu estarei lá de bermuda e tênis), a celebração da festa dos dez anos da OEMT – Orquestra do Estado do Mato Grosso (www.orquestra.mt.gov.br) é prova viva de tudo isso. De 2005 a 2013, poucos sabem que mais de seiscentos concertos foram realizados por esta orquestra em diversos municípios de Mato Grosso e outras cidades do Brasil. Só no ano de 2008, para se ter uma ideia, duas turnês nacionais levou a OEMT a 22 estados. Nove CDs e quatro DVDs já foram gravados. Chama igualmente a atenção o elegante e bem elaborado portfolio onde, há anos, a OEMT divulga sua programação anual, em uma época em que muitas orquestras ainda lutam por conseguir uma temporada definida e consolidada. O Governo do Estado do Mato Grosso vem mantendo, com fatos, o desejado e tão falado compromisso de democratização do acesso à cultura. E contra fatos não há argumentos. O responsável por tudo isso tem nome e sobrenome: o maestro Leandro Carvalho.

Conheci Leandro Carvalho em 2012, quando fui convidado a solar com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Lembro-me do modo sereno e seguro, do seu conhecimento detalhado e aprofundado, com que conduziu o Concerto para piano de Grieg, lá no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele sabia exatamente o que queria e não pretendia provar nada para ninguém. Queria fazer música. Um homem sem pose. Um homem normal. Além de sua função de diretor artístico e regente principal da OEMT, Leandro Carvalho hoje realiza residência artística na renomada Orquestra da Filadélfia, nos USA.

Em uma década de atividades, a OEMT, criada no coração da América Latina, quebrou paradigmas da música de concerto ao combinar o repertório tradicional com novas composições e arranjos em que instrumentos da cultura popular mato-grossense – viola de cocho, o mocho e o ganzá -, são utilizados. Uma nova materialização do que fez Villa-Lobos ao viajar por este Brasil imenso antes de plasmar em suas obras a cultura nacional. Um resgate. A bem-sucedida mistura rendeu reconhecimento imediato e estabeleceu uma forte conexão com o público. Hoje, para nossa boa surpresa, a OEMT desenvolve três séries de concertos: oficiais, didáticos e populares.

“A Orquestra do Estado de Mato Grosso abraçou com grande entusiasmo a oportunidade de mostrar seu trabalho em um concerto aberto e gratuito no Auditório Ibirapuera, um dos mais importantes palcos de São Paulo. Estaremos acompanhados de grandes artistas que fizeram parte da nossa história e deram importantes contribuições nesses dez anos de estrada que percorremos até aqui. O repertório será centrado na música de fronteira e revelará ao público paulista a tradição das orquestras típicas, em que instrumentos folclóricos unem-se aos instrumentos clássicos para a criação de uma rica e inusitada sonoridade”, comenta Leandro Carvalho.

Sobem ao palco o violeiro Roberto Corrêa, o Trio Pescuma, Henrique & Claudinho, o bandoneonista argentino Carlos Corrales e a banda Vanguart. Repertório? Música de fronteira, incluindo Piazzolla e os paraguaios Hermínio Gimenez e José Asunción Flores, que tiveram grande participação na cultura musical brasileira, especialmente no Brasil Central. Na ocasião, a OEMT lançará dois discos pela gravadora Kuarup: o álbum Tango e o Calidoscópio. A discografia da OEMT pode ser adquirida pelo site da gravadora Kuarup e as músicas podem ser baixadas individualmente pelo iTunes e similares. A iniciativa do concerto comemorativo da OEMT é do Governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, em parceria com o Auditório Ibirapuera.

E para aqueles que ainda pensam que cachorro gosta de roer osso, fica a pergunta: já tentou oferecer a ele um pedaço de mignon?

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