Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília: o que é a verdade?

Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília: o que é a verdade?

Alvaro Siviero

10 de maio de 2016 | 14h47

Roma, Auditorium Parco della Musica 21 10 2010 Ritratti di Antonio Pappano per cd Emi Rachmaninov ©Musacchio & Ianniello

Antonio Pappano – Diretor Artístico da Academia de Santa Cecília

“O que é a verdade? ” A resposta à histórica pergunta formulada pelo governador Pôncio Pilatos não é tarefa nada fácil. Contraditoriamente, sua detecção é intuitiva, imediata. Não sabemos definir a verdade, mas sabemos quando ela acontece. E foi essa resposta, nada fácil, que os presentes à recente apresentação da Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília encontraram. Promovida pela Sociedade de Cultura Artística, a apresentação mostrou que a Beleza da verdadeira música não se demonstra: se mostra. Sua coerência basta. Fundada em 1908, e já tendo recebido à sua frente os compositores Gustav Mahler, Richard Strauss, Stravinski e Sibelius, além de grandes nomes da regência planetária como Toscanini, Solti e Kleiber, a Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecília encantou os presentes. Antonio Pappano, seu atual diretor artístico, consolidou a presença da orquestra nos maiores festivais de música clássica, além de promover constantes lançamentos de gravações que estão sendo consideradas, por muitos, antológicas. Uma orquestra fenomenal. Um golaço da Sociedade de Cultura Artística em sua programação para 2016.

Giuseppe Verdi foi o compositor italiano – coincidência? – escolhido para iniciar o programa do último dia 07 de maio, com a Abertura de La Forza del Destino. Com sonoridade consistente e fraseados bordados em perfeição, cordas – violinos, violas, cellos e contrabaixos – alternavam-se em união sonora, de tal comunhão, que provocaram uma espécie de efeito hipnótico: não foram poucas as vezes em que tínhamos a impressão de ouvirmos um único violino soando com potência sonora equivalente às dezenas de violinistas presentes. Pura coesão. Vale ressaltar com referência especial os solos realizados pelo primeiro oboé que, em conjunto com a primeira flauta, passearam de modo soberano e impecável pelo tranquilo e melancólico tema central desta obra.

Atribui-se a Tchaikovsky ter afirmado que seu célebre Concerto n.1 para piano e orquestra em si bemol menor, Op.23, talvez o mais conhecido de todos os concertos escritos para piano, teria características de verdadeiro combate. Solista e orquestra, em espécie de competição velada, revelariam ao final da execução quem seria o vencedor. Nikolai Rubinstein, pianista idolatrado pelo autor e inicialmente previsto para ser o solista da première, fez duras críticas à obra, devido tanto à sua extrema dificuldade técnica quanto musical. Assim mesmo: quando uma dessas características suplanta a outra, a interpretação fica comprometida. E consequentemente o embate. E tudo estava previsto para que, ao final, o solista fosse o vitorioso. Lenda ou realidade, este ensinamento é transmitido a todos aqueles que ousam adentrar-se na obra.

A interpretação da pianista italiana Beatrice Rana, apoiados no ensinamento, trouxe-nos a dúvida de quem, de fato, havia vencido. Detentora de prêmios e densa sonoridade (algo martelada), ataques afobados fizeram-na, em alguns momentos, desencontrar-se musicalmente da orquestra, não somente no quesito partitura, mas nas ideias musicais propostas na narrativa, comprometendo de certa forma a simbiose solista-orquestra. Beatrice Rana pareceu preocupar-se com o aspecto técnico, brilhantemente desempenhado, mas talvez esquecendo-se da música proposta e embutida na própria dificuldade técnica. Sentia-se no ar uma tensão, certa rigidez que a verdade e a música não compartilham necessariamente. Mas Tchaikovsky, com seu finale, ganhou contornos arrebatadores do grande público.

A Sinfonia n.5 em mi menor. Op.64, a penúltima escrita pelo autor cinco anos de sua morte, ganhou contornos que aliaram à melancolia um grau de heroísmo turbulento com andamentos dinâmicos empreendidos por Pappano. Tudo perfeitamente acoplado e verdadeiro. A interpretação convencia. Todos e cada um dos músicos assumiu o protagonismo de solista da obra: cada nota importava, cada nuance não poderia ser desconsidero e qualquer esforço musical excedente tornou-se uma necessidade. A estória musical da obra soou avassaladora, tão avassaladora quanto conter “uma completa resignação diante do destino, que é idêntica à impenetrável predestinação do destino”, como afirmou o autor.

Mesmo em um final de semana de Dia das Mães, a apresentação não impediu que um enorme e concorrido público afluísse ao concerto, talvez ávidos e sedentos de verdade. Aos que assim se aproximaram da Sala São Paulo no último sábado, estou convencido, a sede desapareceu.