Olga e seu martírio encerram III Festival de Ópera de Brasília

Alvaro Siviero

07 de julho de 2013 | 17h43

A cidade de Brasília respirou ópera, durante quase um mês, pelo terceiro ano consecutivo. Ponto positivo. Regularidade é o que cria tradição.  E, talvez, seja essa mesma tradição que explique a grande afluência de público – a grande maioria jovens – para este espetáculo que teve suas apresentações esgotadas. Após seis recitas de Carmen e dois concertos em homenagem ao bicentenário de nascimento dos compositores Wagner e Verdi, entra em cena Olga, relato histórico da jovem judia Olga Benario, uma militante comunista alemã que, após período em Berlim e Moscou – onde recebeu treinamento militar, participou de diversos golpes, esteve presa e chegou a ser acusada de traição – é designada a acompanhar o líder comunista brasileiro Luis Carlos Prestes na realização da Intentona Comunista de 1935. Disfarçados de marido e mulher, apaixonam-se durante a longa viagem que os traria ao Brasil, em enorme paralelismo com outra saga igualmente trágica: a de Tristão e Isolda. Moderna e inusitada – levou uma década para ser composta – Olga traz explícitas e propositais referências à obra de Wagner, plasmada em dança por bailarinos que prefiguram o futuro da trama. A obra demorou a ser aceita. “No período compreendido entre 1993 e 2006, lutei intensamente, buscando teatros, diretores, maestros, orquestras e empresas financiadoras para a encenação. Não encontrei. Todos achavam que o libreto tratava de uma história de subversivos, exaltando Olga e Prestes comunistas, e eu com uma música contestadora e revolucionária”, dispara Antunes. Diante do momento político brasileiro atual – em que manifestações ocupam as ruas de todo o país – a coincidência da programação do Festival não poderia ter sido mais oportuna ao colocar em cena uma ópera que expressa rebeldia, amor e transformação social.

A segura encenação e cenografia de William Pereira levam, como que pela mão, a plateia. A contraposição e participação dos personagens em imagens vídeo- fotográficas, de cunho histórico – como as do presidente Getúlio Vargas (responsável pela deportação de Olga à Alemanha) e de manchetes de jornais da época – empreendeu ritmo às mais de 3 horas de espetáculo. Créditos especiais às intervenções do staff na geografia da plateia. Tudo muito dinâmico.

 

Especial atenção à participação da soprano Martha Herr (Olga) e a Adriano Pinheiro (Prestes). A versatilidade da experiente Martha Herr arrancou dos presentes tanto olhares umedecidos – em especial em sua ária final, em que prenuncia sua próxima execução na câmara de gás de Bernburg  – quanto gargalhadas na química construída pelos dois personagens. Uma presença cênica marcante deve ser debitada ao barítono Homero Velho no papel de Filinto Muller, de timbrada potência sonora e encarnação vivida do maquiavélico e vilão chefe de polícia.

Falhas isoladas no letreiro impediram, no entanto, que o aproveitamento do conteúdo fosse maior.  Da mesma forma, algumas das projeções do telão pecavam por falta de nitidez. Uma plateia ávida por manifestações culturais deste porte, mas inexperiente, caminhava atrasada pelos corredores do teatro impedindo a visão dos presentes (não havia maldade, havia inadvertência): talvez esse aspecto pudesse ser melhor cuidado em futuros eventos. Fica também a surpresa de que Olga, que estreou em São Paulo em 2006, nunca tenha sido realizada na cidade do Rio de Janeiro, palco de todo o contexto histórico.

A regência de Mateus Araújo, consolidada na profunda análise histórica e musical realizada, trouxe à Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional uma encaminhamento seguro, com sonoridade apropriada. Obras como essa fazem uma orquestra crescer, e a Sinfônica de Brasília merece esse crescimento.

O diretor do Festival, Cláudio Cohen, celebra a apresentação de Olga em palcos brasilienses. “Escolhi encerrar o Festival com esta ópera, porque ela valoriza o que é nosso”.

Agora é esperar por 2014 e torcer para que a iniciativa do Distrito Federal se perpetue. Brasília merece!

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