O Morcego: a Viena de Strauss, a modernidade e o caloroso aplauso do grande público

Alvaro Siviero

12 de dezembro de 2011 | 16h12

A récita de O Morcego, opereta que encerra a programação do Theatro Municipal de São Paulo, mostrou qual o porquê de estar com seus ingressos esgotados. Além de sólida presença cênica e lírica dos artistas envolvidos, une-se a conexão com o público criada pela adequação do seu conteúdo ao contexto dos dias atuais, tanto pela tradução adaptada ao português como pela utilização de cenários e figurinos modernos. Sem dúvida, pontos positivos para o diretor William Pereira. A tentativa de apoiar o caráter cômico da obra em excessivas ironias, em liberdades excessivas de contextualização ou até mesmo em sexualidade barata – preservativos, lingeries, danças do mastro, entre outros, em destaque especial – acabaram  em alguns momentos criando certo desconforto, ou até mesmo neutralizando o humor espontâneo que a própria obra já possui. Mas talvez, essa fosse exatamente a proposta: uma crítica à real sociedade atual, banalizada em matérias que merecem maior importância e respeito. Tudo muito sutil. Sem dúvida, uma contraproposta à Viena do século 19.

A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a experiente regência de Abel Rocha, em plena forma, quase dividindo o palco com os personagens, assumiu em muitos momentos o protagonismo, transmitindo aos presentes a viva impressão de que, quando se sabe o que se faz, o fosso é mera geografia. O esmero de sonoridade, as dinâmicas criadoras de novos ânimos aos diferentes momentos da estória e, acima de tudo, a segurança transmitida por Abel Rocha, explicaram o caloroso e merecido aplauso recebido.

Já no primeiro ato, Edna D’Oliveira (Adele) revelou seu lado cômico incomum, unido à sua marcante presença cênica e lírica. Em conjunto com as igualmente marcantes presenças de Rosana Lamosa (Rosalinde) e Fernando Portari (Eisenstein), conseguiram deixar o público inquieto e expectante para o segundo ato. Destaque também especial para Rubens Medina, no papel de Alfred. É também no segundo ato que Rosana Lamosa mostra porque hoje é considerada uma das grandes cantoras líricas da atualidade, em sua magistral interpretação da célebre czarda húngara, em timbre sonoro aveludado. Sem dúvida, um dos pontos altos da récita. Fernando Portari, com sua voz segura, atua como perfeito fio condutor da trama. Leonardo Neiva (Falke) e Regina Elena Mesquita (príncipe Orlofsky), experientes, deram ao espetáculo o sabor que a estória exigia. A utilização de diversos musicais durante o segundo ato – inclusive a figura do samba brasileiro – trouxeram à festa do príncipe Orlofsky aquela pitada cômica extra que cativou o grande público.

Quando a récita se encerrou, público e elenco estavam de mãos dadas. Que venha 2012 com outros presentes – agora que se aproxima o Natal – como esse!

                                              

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