O Mistério do Natal

O Mistério do Natal

Alvaro Siviero

24 de dezembro de 2011 | 16h13

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Escrevo aqui algo um tanto diferente. Inesperado. Abro o coração por ver tantos e tantas bem fora da casinha, abrindo mão de conceitos e até mesmo da própria língua portuguesa, dando passagem a todo tipo de interpretação falseada, subjetiva e carente de fundamentação. Tudo meio upside down. Hoje, a palavra preconceito é confundida com qualquer coisa, até mesmo com conceitos legítimos. Os termos “progressista”, “fundamentalista”, “conservador” começaram a significar o que você quiser. Respeito virou sinônimo de conivência, de concordar com tudo. Até a Música de Concerto  – para surpresa e gargalhada de alguns, há até quem grafe a palavra concerto com “s” – é entendida como música de elite ou de dormir 🙂
O mundo – e não é difícil observar – carente de conceitos fundamentados, de valores sólidos e de uma certa dose de bom senso, virou uma espécie de arena do vale tudo. Isso não é negativismo. É realismo. Somente reconhecendo os fatos reais é que conseguiremos dar a guinada. Ninguém muda aquilo que não admite.

Nos últimos tempos, o Natal transformou-se em mistério. Bichinhos pulando, Papai-Noel gigante, reflexões sobre a Floresta Amazônica, bolinhas reluzentes, estrelinhas douradas, pó de pirilim-pim-pim, trenós, duendes, laços gigantes purpurinados, desejos de “bom feriado” e a dúvida se compro chester ou perú. Esqueceram que a etimologia da própria palavra assegura que Natal significa nascimento. Natalício. Imagine, caro leitor, se no dia do seu aniversário muitos fossem à sua festa mas não te cumprimentassem. Tudo, menos você. Convidados bem vestidos (afinal de contas é uma festa, não é?), conversas animadas, brindes de champagne e nenhuma referência a você. Isso mesmo. Nenhuma. Nada. Ninguém te presenteando ou parabenizando. Uma maluquice, não é? Pois é, a maluquice hoje é geral. Tomou conta. E não são poucos os que doidamente embarcaram nela.

Esses dias fui à Pro-Matre, uma conhecida maternidade aqui de São Paulo. Nasceu o Gabriel, primeiro filho de um casal super amigo. A Thays havia preparado, com muita elegância e amor, no detalhe, o nascimento do filhão: doces finos, lembrancinhas e tudo mais. Mas o primeiro é o Gabriel. Se você, neste momento, em exercício de auto-crítica, se deu conta de que o sentido do Natal se esvaziou também para você, venho aqui dar uma dica. Ainda dá tempo. Uma dica de um presente, afinal de contas nada deixa um aniversariante mais feliz do que ser lembrado nominalmente, ganhando um presente legal.

Talvez poucos saibam que o prefixo per significa maximização. É por isso que os compostos permanganato, perclorato, peróxido, etc, possuem esse nome: esses compostos estão em seu nível máximo de oxigênio em suas estruturas moleculares. Você pode seguir, ou perseguir. Você pode permanecer. Quando fizer algo, faça-o perfeito. E sendo o Natal a festa do Amor, da doação de um Menino que nasce em uma estrebaria por amor a nós homens, nossa única atitude deve ser a de correspondência. Amor com amor se paga. E amar é dar, é doar, é doar-se. Quer viver um Natal verdadeiro e completo? Então não somente doe, mas perdoe. E perdoe com todo o coração. Experimente. Perdoar não é esquecer: isso é amnésia. Perdoar é lembrar sem se ferir e sem sofrer: isso é cura. Por isso é uma decisão, não um sentimento.

Há uma enorme diferença entre perdoar e desculpar. Novamente, basta olhar para a etimologia da palavra. Des-culpar (assim como des-fazer) é tirar a culpa de alguém. Muitas vezes, inadvertidamente, sem intencionalidade, cometemos erros. Quem tropeça e quebra um objeto de valor não possui intencionalidade na ação. Retiramos a culpa dessa pessoa. Na realidade, nem a debitamos. Desculpamos. Perdoar é algo bem diferente. É decisão da vontade. É enfrentar de coração aberto um agravo real, intencional e conscientemente cometido. Sim, a pessoa quis te ofender. Esse é um dos presentes que a mensagem do Menino que nasceu em Belém nos pede: perdoar. Ele veio na frente dando exemplo. Veio perdoar você. E a mim. Individualmente. Diz o ditado que Deus só sabe contar até um.

Não deixe a desinformação e o desconhecimento te desvirtuar do real significado deste momento mágico. Coloque em sua casa as luzinhas que você quiser, mas primeiramente coloque uma luz na tua inteligência e no seu coração. Isso é viver o Natal.  O resto é resto. As pessoas se desvirtuaram não por maldade, mas por ignorância. Corre lá. Dá tempo de sair dessa barca furada dos modismos comerciais. Dá para recuperar o tempo perdido.

Floquinhos de neve? Boas Festas? Não. Desejo a todos, extensivo a familiares e amigos, um Santo, Feliz e Verdadeiro Natal. Sempre com muita Música.

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