“O espetáculo sou eu”

“O espetáculo sou eu”

Alvaro Siviero

30 Janeiro 2015 | 16h24

Liszt

Tudo começou em Paris, na primeira metade do século 19, em um encontro marcante para o compositor teuto-húngaro Franz Liszt (1811-1886) que, ao se deparar com as diabruras que o violinista Niccolo Paganini fazia em seu instrumento, decidiu fazer o mesmo em seu piano. Paganini, entre tantas outras façanhas, tensionava de tal forma as cordas de seu violino para que estourassem durante sua execução, o que não o impedia de finalizar a obra nas cordas restantes. Tudo proposital. E a plateia entrava em delírio. O frisson era inevitável, bem como o desespero de muitos pianistas que agora sentem o dever de interpretar as obras deste príncipe do teclado, como foi denominado por alguns. Saltos de mãos, cascata de notas, velocidade astronômica e enormes acordes em sucessão enlouquecedora e pirotécnica. Uma nova proposta de virtuosismo.

Liszt possuía enorme presença musical: carisma, sofisticação, controle sonoro refinado, técnica impecável e, completando os ingredientes, um biotipo hipnotizador de donzelas que, aos tapas e gritos, disputavam suas luvas atiradas por ele em direção à plateia. Um showman. Sua beleza física levou-o, quase que em exercício de egocentrismo, a alterar a posição do piano no palco para que a plateia pudesse observar o perfil do rosto do pianista (a tradição anterior deixava os pianistas de costas para a plateia). Outra grande mudança refere-se à dinâmica dos concertos que, no século 19, apresentavam em uma mesma récita diversos artistas, todos eles dividindo sucessivamente o mesmo palco: violoncelistas, pianistas, cantores líricos, orquestras, entre outros diversos grupos. Nesta salada de frutas havia, inclusive, para horror de alguns artistas como Chopin, o costume de dedicar parte da récita à improvisação, onde o artista deveria desenvolver on the spur of the moment um tema sugerido pela platéia. Um belo dia, surpreendendo a todos, Liszt entrou no palco e afirmou: “O espetáculo sou eu”. A partir de então, surge o formato atual, onde um único artista ou grupo sinfônico é responsável pela apresentação.

A música de Liszt é repleta de ataque e bravura, de pose desafiadora, de triunfal dificuldade técnica. É música cinética, composta para surpreender. Infelizmente, esses qualificativos da música de Liszt levaram alguns musicólogos – ao meu ver injustamente – a  defini-la como superficial, propensa mais ao efeito do que à substância. Fica a pergunta: será que uma música de tamanha ousadia harmônica pode ser inteiramente superficial?

De tirar o fôlego, a obra La Campanella (o sino), composta por Paganini para o violino, é uma das muitas transcrições de Liszt para o piano. Simplesmente genial.

 

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