O envelhecimento das plateias: pais ausentes

O envelhecimento das plateias: pais ausentes

Alvaro Siviero

08 de dezembro de 2015 | 15h16

Copenhagen concert hall audience

Sou fã do filme Mr. Holland Opus, a estória de um carismático e idolatrado professor de Música (com o excelente Richard Dreyfuss no papel principal) que, após tantos anos de labuta, é demitido. “Você pode cortar o quanto você quiser do currículo de artes, Jim, mas chegará um dia em que os alunos não terão mais sobre o que ler ou escrever”, dispara. E a luta deste dedicado professor, contra tudo e contra todos, se inicia. “Não, eu não estou falando sobre o meu emprego, mas sobre a educação que os alunos merecem receber”, afirma Mr. Holland ao board da Kennedy School. Um filme tocante, que vivamente aconselho. Chorei um bocado ao final. Essa situação – em um paralelo de cara e coroa da mesma moeda – fez-me pensar no que afirmou o compositor Paul Hindemith, ao afirmar que “chegará um momento em que o número de músicos profissionais crescerá mais e mais, a cada dia, mas sem plateias que os prestigiem”. A afirmação pode soar interesseira, dado que – mesmo em plano meramente egoísta – músicos necessitam de plateias a quem manifestem sua arte, fonte de sua remuneração e subsistência. Mas se enganaria quem assim o entendesse. O desafio é outro.

Há muita gente boa no mercado musical profissional: gente talentosa, focada e bem sucedida.  Outros, também em grande quantidade, lutam por um lugar ao sol, enfrentando concursos internacionais e aguardando aquele empurrão mágico da sorte e da visibilidade que os faça despontar. Outros – agora em maior quantidade – são jovens estudantes, extremamente comprometidos, que investem horas diárias em busca de um patamar artístico. Na China, por exemplo, estima-se que mais de 50 milhões de jovens estejam recebendo aulas de piano (algumas fontes chegam a afirmar 80 milhões). A competição é enorme. Se, agora, começarmos a também falar de outros instrumentistas e de tantos outros países, aí sim, os números tornam-se ainda mais enlouquecedores. Sim, o mercado é abundante.  Este mesmo crescimento, no entanto, não pode ser afirmado em relação ao crescimento de novas plateias, de novos públicos, que aparentam desgastar-se, envelhecer e diminuir com o passar dos anos, sem a necessária reciclagem esperada e desejada.

É fato que o homem, como necessidade vital, busca experiências que revelem o sentido de transcendência e de Beleza da vida que podem ser encontrados – e o são – quando nos deparamos com conteúdos enriquecedores, com valores estéticos incontestáveis e com uma educação que seja sólida. Infelizmente, pais ausentes e esquecidos de que a educação integral de seus filhos não se faz por transferência de responsabilidades, “educam” transferindo seus deveres a estranhos, mesmo que seja uma instituição escolar. Esquecem-se de que a escola não é a responsável última pela formação de uma família: os verdadeiros responsáveis são os próprios pais. A escola tem seu papel de co-participação, até mesmo de apoio e de trabalho coadjuvante. Nada mais do que isso. O processo educacional e de capacitação cultural das gerações futuras, em função do comportamento dos pais, pode seriamente se comprometer quando, os próprios pais, os atores principais, não vão à frente dando exemplo. Educar não é mandar um filho para a Disney. Educar é refinar. Educar é polir. Educar é, em última análise, colocar e colocar-se em contato com essa zona íntima e especial que trazemos dentro do coração e que nos impele a ser melhores – não somente nos âmbitos da Matemática, Geografia, História, aprendizagem de idiomas, entre outros – mas, fundamentalmente, como seres humanos. E muitas escolas – insisto, muitas – , movidas por modismos, por teorias pedagógicas ideologizadas e por carência de conteúdo programático encontram-se perdidas. Assim mesmo: per-di-das. Professores e alunos sendo transformados em massa de manobra, onde educação e manipulação acabam se confundindo. É contundente – e claro – o depoimento do vídeo abaixo, entre tantos existentes, dos desvios que, mesmo munidos de reta intenção, os desmandos ideológicos educacionais podem ocasionar:

A presença de tantos turistas em museus como os Vaticanos, o Louvre, em cidades como Veneza, Viena, em exposições nacionais, ou até mesmo sentados em uma livraria da cidade nestes momentos de enriquecimento discreto que traz uma boa leitura, confirma a direção ao qual aponta o ser humano. O ser humano normal. Os Big Brothers da vida, o aviltamento televisivo de alguns programas de auditório, as novelas – a queda vertiginosa de audiência é a maior prova de sua rejeição – repletas de traição, vingança, ódio e sexo vulgarizado, entre outros, são a contraprova de uma ideologia do entretenimento barato que embrutece, que caleja e que guarda relação direta e imediata ao desinteresse por valores culturais sólidos. O envelhecimento de uma plateia é consequência do processo educacional desastrado e do entretenimento rebolation. Caro leitor, pai e mãe de família, você sabe exatamente o que está ocorrendo com seus filhos?

Não se trata de ser careta, trata-se de ter bom senso. Qualquer pai atento percebe que muitas instituições denominadas “escolas”, hoje, ensinam de tudo, menos o que devem. Preparam para tudo, até mesmo para o que não é devido. A falta de Educação e suas consequências na Cultura caminham de mãos dadas.

Fica aqui uma sugestão aos pais: sendo vocês participativos e atentos – paternidade responsável – não se esqueçam de que seus filhos são o futuro da geração cultural do país. Educa-se com investimento de tempo e de conteúdo qualificado. Educa-se com o diálogo e com a inclusão de ideias solidas. Se as escolas públicas não cumprem sua função educadora, resta aos pais – os verdadeiros protagonistas deste processo – suprir esta deficiência e, sendo o caso – porque não? – buscar outra escola. Para aqueles pais realmente preocupados em formar seus filhos dentro da cidadania, do refinamento e da sensibilidade própria das relações sociais, faço outra sugestão: levem seus filhos a uma sala de concertos. O idioma “Música” é um idioma mais forte e poderoso que o inglês, cultuado em relações comerciais e de negócio. Mas a vida não é um negócio. Além disso, a Música estimula – e muito – o desenvolvimento e o potencial cerebral, aumenta o sentido crítico, a capacidade de concentração, desenvolve a aprendizagem em um processo onde pensamos por conta própria. Forma-nos cidadãos independentes.

Para as escolas e “pedagogos” que transformaram o sagrado da profissão em investimento que embrutece, em ideologia que emburrece ou em viés de puro entretenimento barato e de discurso politicamente correto, não se esqueçam que vocês estão deformando o futuro, talvez por vocês mesmos terem sido vítimas desta manobra educacional falha. Aos que quiserem repensar o próprio comportamento, fica minha dica: assistam a um bom concerto!

Estou convencido de que plateias novas surgirão em conjunto com o rejuvenescimento dos valores sólidos. Depende de mim. Depende de você.