O desafio do talento

O desafio do talento

Alvaro Siviero

26 Janeiro 2015 | 18h35

talento artístico

Um talento artístico é sempre um dom, um presente, um gift (em inglês, gifted person). Não é para todos, e nem tem o porquê de ser. Somos diferentes, e é nessa diversidade que radica a maravilha da convivência e do diálogo. Algumas pessoas nascem com especial talento para o esporte, outros para a simpatia, outros para a intelectualidade. Outros, talvez, estejam desprovidos de quaisquer capacidades “especiais”. Mas não é isso o que os define, dado que não há virtude em um talento. Um talento não é consequência de esforço, de empenho. É algo aleatório e imerecido: recai sobre uns e não recai sobre outros. Simples assim. Não há, portanto, mérito algum em possuir um talento. O mérito de qualquer ação sempre se radica no esforço e dedicação devotados. Há mérito em quem, como fruto de árduo trabalho, compra uma casa própria. Há mérito em quem, por empenho, evita ambientes onde predomina a fofoca. Há esforço. Há virtude. No entanto, quando o talento existe, enxerga-se além, e chega-se mais longe. A genialidade de um Pelé ou de um Garrincha não é resultado de uma aula ou de uma instrução recebida. É puro dom. Quando isso acontece, improvisa-se, cria-se, encanta-se, o que não exclui o esforço e as necessárias horas de dedicação para que o talento seja, cada vez mais, aprimorado. Mas o dom antecede. Com o dom entende-se, vive-se, desfruta-se com maior profundidade o objeto do talento. 

O vídeo abaixo, por esse motivo, surpreende.  

A genialidade de compositores como Mozart, Beethoven e tantos outros assusta. Mozart compôs seu primeiro concerto para piano aos cinco anos de idade. Beethoven compôs diversas sinfonias em plena fase de maturidade repleta de surdez. Mas não é isso o que qualifica o ser humano, local onde reside o artista. Há quem tenha facilidade para falar em público, há quem tenha o talento do ouvido absoluto, há quem tenha o talento da simpatia. Tudo isso é muito bem vindo. Mas não é isso o que define o ser humano. E toda comparação que leve a inferiorizar os desprovidos dessas facilidades é, conceitualmente, injusta.

A cultura atual, mal entendida, leva a idolatrar pessoas talentosas, de destaque. Mas idolatra-se erroneamente. Em uma sala de aula, por exemplo, exalta-se o aluno que, mesmo não cumprindo seus deveres e empenhando-se pouco, ou quase nada, alcança uma nota máxima pela facilidade intelectual que possui. “Incrível, o cara é fera”, afirmam alguns.  E se acaso outro aluno, esforçado, perseverante, dedicado, estuda horas a fio e alcança a mesma nota máxima, ouve-se: “ah, estudando qualquer um…”. Uma pena. Valoriza-se o dom e desconsidera-se o esforço e a virtude, dignos do mérito. A confusão conceitual pode se tornar ainda maior quando o egocentrismo vaidoso apropria-se de um dom entendido como mérito pessoal. E esse engano gera artistas exaltados, autocentrados, que não mais entendem seu papel como mensageiros do que realmente importa: a obra de arte.

No âmbito artístico – não deveria ser assim, mas algumas vezes o é – pessoas desprovidas de talento podem até se incomodar ao perceberem que, por mais que se esforcem, o resultado alcançado sempre ficará aquém quando comparado aos daqueles que desfrutam dessa conaturalidade. É verdade. Sem talento artístico não se pode construir o verdadeiro artista. Mas sem esforço não se pode construir o verdadeiro ser humano.