O critico musical como medicina da insegurança pessoal

Alvaro Siviero

11 de outubro de 2013 | 11h24

Você não é melhor por te elogiarem, ou pior por te criticarem. Você é o que você é.

Palpites, opiniões e sugestões são ingredientes da nossa vida, sejam eles corretos ou não. Devem ser recebidos de modo desarmado, aberto. Analisados. Quando existe um núcleo sincero, de honestidade com a própria consciência e com a realidade dos fatos, esses ingredientes pouco, muito pouco, afetam a realidade do que é cada um. Contra fatos não há argumentos. O jogo entre realidade e aparência, o desejo de pose, prestígio ou sucesso mal entendido, é o que pode ferir a “autoestima” de alguns. Lembro-me daquele senhor que, complexado, procurou um psicólogo. Sentia-se baixinho. E a resposta do psicólogo o curou: “O senhor não deve ter complexo de baixinho. O senhor é baixinho mesmo!”. E o problema se resolveu. Assim é a vida.

Um artista, no palco, não deve ter nenhuma outra preocupação que a sua própria arte. Como uma criança, que não brinca para os outros, o artista deve entrar no palco para se divertir, para se envolver com sua performance. Ele não tem que provar nada para ninguém.E é essa falta de simplicidade, de excessivo apreço com a opinião dos outros, sobre aparências, o que cria, em muitos, fontes de tensão, de tremeliques e de incapacidade.

A figura do crítico musical – que pode desestabilizar aqueles ainda não centrados em uma sinceridade de vida – ganha, quando existe honestidade e autocrítica, um contorno secundário. Czerny, aluno dileto de Beethoven, afirmou o que teria ouvido certa vez da boca do mestre: “Mozart toca bem, mas muito picado, sem legato”. Mas Mozart é Mozart. E Beethoven é Beethoven. Curiosamente, muitos críticos que se pronunciaram sobre Liszt, Mendelssohn, Brahms, e sobre tantos outros gênios da música, perderam-se no tempo, no anonimato, enquanto seus criticados se eternizaram. Em célebres instituições musicais no exterior, presenciei bam-bam-bams do piano afirmando sobre uma mesma passagem musical opiniões completamente distintas. Vale lembrar, também, que um artista não é máquina, sempre impecável, sempre pronto a deleitar e encantar os ouvidos e os critérios dos entendidos. O artista é também gente.

O bom crítico musical não é um jurado de programa de auditório que se limita a dar nota para um disco ou evento. Ele vai além: contextualiza, informa sobre o artista, enriquece o leitor. Sua meta não é desinflar o ego de artistas deslumbrados. Profissão exigente, onde o maior desafio foi tão claramente explanado no incrível desenho Ratatouille. O nome do crítico? Anton Ego.

 

Divertiu-me também o vídeo  abaixo, uma espécie de bate-papo, onde a diva do piano Martha Argerich expõe diversos pontos de vista. No minuto 3:50, é questionada sobre “What profession would you not have liked” (qual profissão você não gostaria). Gargalhei junto com ela.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: