Nelson Freire interpreta Mozart com os olhos de Beethoven

Alvaro Siviero

27 de abril de 2012 | 10h22

Era tal o domínio e conhecimento que Beethoven possuía sobre Mozart que, em muitas de suas composições, o próprio Beethoven afirmava não saber se em suas obras estava criando algo novo ou plagiando o músico austríaco. O grande desejo de Beethoven era o de ser aluno de Mozart.

A relação entre os dois músicos vai além do meramente musical. Max Franz, irmão mais novo do imperador José II e de Maria Antonieta,  filhos da imperatriz Maria Teresa, era um apaixonado por música e por Mozart, em quem pretendia investir sólido patrocínio. Mas a Mozart não lhe interessou o posto de mestre capela de Bonn. A negativa de Mozart foi o provável motivo que o fez investir em um talento local: Beethoven. E com este apoio,  então com 16 anos, o jovem Beethoven fez sua primeira viagem a Viena onde, após assistir uma apresentação de Mozart afirmou: “Mozart toca bem, mas muito picado, sem legato“. Essa afirmação foi-nos transmitida através de Czerny, aluno de Beethoven.

Esse embasamento histórico vai ao encontro das declarações do pianista Nelson Freire, como atesta João Luiz Sampaio, em recente entrevista publicada no Estado (leia íntegra). O concerto n.20 para piano, de Mozart, interpretado por Freire, era um dos concertos preferidos de Beethoven. “Não é por acaso, Beethoven já está ali nessa obra, ainda que de forma embrionária”, afirmou o pianista. Pois bem, Freire interpretou Mozart com a visão beethoveniana, dando à performance um caráter mais romântico, com a utilização de rubatos , pedal generoso e legatos. O rondo final recebeu do pianista accelerandos assumidos em algumas retomadas de tema. E Freire assumiu esta responsabilidade. O primeiro contato com esse concerto de Mozart, declarou Freire, foi na juventude, em uma apresentação da pianista Guiomar Novaes, de quem é fã declarado.

A platéia, que lotava a Sala São Paulo, em delírio, aplaudia o pianista. Vê-se que Freire está acima do bem e do mal. Tem carisma musical. Ao final, como uma dedada de mel aos presentes e agradecimento à pianista Guiomar Novaes, veio o inevitável: o seu Gluck-Sgambatti.

E Mozart e Beethoven, juntos, tornaram-se mais próximos do que nunca.

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