Nelson Freire e OSESP: um passeio pelo Ibirapuera

Alvaro Siviero

15 Julho 2012 | 16h50

Na manhã de hoje, enquanto fazia meu jogging pelo parque do Ibirapuera, sob um vento gelado, pude escutar alguns acordes ao piano. Eu sabia que estavam sendo executados pelo pianista Nelson Freire, ainda em aquecimento para a apresentação que faria junto à OSESP mais ao final da manhã. Além do esporte, outra meta era ouvir sua execução do Momoprecoce, de Villa-Lobos.

Os comentários tecidos, com todas as letras, sobre o concerto do último dia 12, na Sala São Paulo, pelo crítico João Marcos Coelho, estavam de acordo com opiniões de diversas outras pessoas que presenciaram o fato. Dado minha ausência, alguns haviam, inclusive, me telefonado para dividir a mesma perplexidade.  “Quando vi a partitura do Momoprecoce em cima do Steinway anteontem, na Sala São Paulo, pensei que o pianista Nelson Freire estava apenas seguindo o exemplo do notável pianista russo Sviatoslav Richter (…).  O público, que cultiva dos grandes solistas a imagem de semideuses, poderia se decepcionar com o fato de ele não tocar de cor. O que parecia só um gesto de quebra de paradigma da cartilha dos superstars do piano (e ele é um deles) transformou-se, ao longo da performance, em realidade mais prosaica. Nelson seguiu a partitura, pulou as páginas onde só a orquestra tocava. Parecia necessitar mesmo da partitura. Os minutos iniciais mostraram Marin e os músicos perseguindo o solista. Aos poucos, eles se ajustaram, mas o clima de corda bamba permaneceu“. Em atitude elegante, João Marcos Coelho justifica o ocorrido responsabilizando a polirritmia da obra, o que a teria tornado “difícil”.  Confesso que algumas pessoas acabaram entrando em contato, dado minha ausência nestas apresentações, para manifestar a mesma impressão.

Com esses dados, minutos antes das 11h, parei na Praça da Paz para prestigiar a apresentação. Tudo com paz, como pede a praça. Mas a proposta acabou sendo outra. As necessárias caixas de som para projeção do som aos presentes, alguns latidos de cachorro (não se esqueça, estamos em um parque!), entre outros, impediram, em grande parte, mas não completamente, de observar o descrito acima.

Nelson Freire é mortal, ao contrário do que podem pensar algumas pessoas. Marin Alsop é grande maestrina, que muito pode ajudar a OSESP neste processo de internacionalização. Talvez, o que é compreensível, ainda lhe falte a intimidade com o repertório brasileiro o que pode, inclusive, ter sido um dos motivos da corda-bamba alegada: maestro e solista que não gozam de perfeito entendimento sempre transformam um concerto em caixa de surpresa. Que o digam os que já passaram por isso…

Fica a dúvida.

Mais conteúdo sobre:

Nelson FreireOSESP