Nelson Freire abre Temporada do Cultura Artística

Nelson Freire abre Temporada do Cultura Artística

Alvaro Siviero

09 de abril de 2014 | 16h33

Nelson Freire é figura que dispensa comentários. Seu recital, que marcou o início da temporada de concertos da Sociedade de Cultura Artística, ontem, na Sala São Paulo, teve seus ingressos esgotados. A segunda apresentação, prevista para hoje na mesma sala, igualmente se esgotou. Sua serena entrada ao palco, recolhida, tímida e a passos curtos, exalava silêncio. Um silêncio interior. Sua conhecida timidez, para mim, equipara-se à neblina de verão: neblina baixa, sol que racha. E a Sala São Paulo se iluminou. Atrevo-me a dar mais uma opinião: o evidente conforto que o pianista encontra – quase uma sinergia – com os compositores românticos encontra seu eco último em sua personalidade apaixonada, mais propensa às coisas do coração e à intuição do que à realidade racional e cerebral. Talvez encontre-se aqui o motivo do aparente distanciamento de Bach, Scarlatti, Mozart (?) em seu repertório.

O programa contemplava Beethoven, Debussy, Rachmaninov e Chopin. A colossal Sonata Op.111, de Beethoven, sua última sonata para piano, é composta por dois movimentos que se complementam: a turbulência e a serenidade. o ímpeto apaixonado e a simplicidade, o externo e o interno, o humano e o divino. A obra, ousaria dizer, não se finaliza: encerra por exaustão. Durante o primeiro movimento, a visão deste ímpeto apaixonado beethoveniano, de forte caráter métrico, recebeu de Nelson Freire uma liberdade expressiva que, por vezes, transpareceu romper os rítmicos e necessários moldes das semicolcheias de seu Allegro con brio ed appassionato. O segundo movimento – um conjunto de variações sobre um tema – foi interpretado de modo sólido, profundo, sublime. A terceira variação, como afirmam alguns pianistas, entre os quais Mitsuko Uchida (solista do próximo concerto da temporada), guarda profunda semelhança com o boogie-woogie, uma premonição do ragtime e do jazz: é Beethoven antecedendo os tempos. Ao final da execução, ainda hipnotizados pelas diversas cores e texturas musicais fabricadas, Nelson Freire trazia o Céu à terra, o espiritual ao humano. E ficava a pergunta: Em que creem os que não creem? E veio o aplauso estrondoso.

Mas foi em Debussy – Les collines d’Anacapri, Soiréee dans Grenade e Poissons d’or – e em Rachmaninov – Prelúdios Op.32 n.10 e n.12 – que, muito provavelmente, o recital atingiu seu ápice. Tudo estava ali. Nestas obras, o silêncio tomou conta da sala, atenta à capacidade de Freire em fabricar intensos volumes sonoros sem nunca “martelar” o piano, assim como à sua imensa capacidade de escalar – como um alpinista – os cumes de pianíssimos e de sutilezas sonoras que criavam a impressão de que som e ar eram uma única e mesma coisa. De fato, respirava-se música. E o pó de pirilim-pim-pim cumpriu sua missão, enfeitiçando a todos.

Para encerrar o programa: Chopin. De bis – dois, na realidade – Schumann e Shostakovich.

É um fato que Nelson Freire atingiu o imaginário coletivo. Está acima do bem e do mal. Tudo o que ele faz, por definição, é maravilhoso e correto. Até mesmo possíveis erros – quem não é falível? – poderiam ser encarados como “nova visão da obra”, o que não seria verdade. E é, talvez por este motivo, que estar em seu recital, para muitos, transformou-se quase em necessidade social. Um sinônimo de evento de sucesso. Nesta seara, não é de se estranhar que acontecimentos menos esperados acabem ocorrendo, como aquele casal de namorados que, aos beijos durante o intervalo, esqueceu (ou não) de entrar para a segunda parte. Ao meu lado, uma elegante senhora. agitada, comentava sobre suas viagens. É igualmente doloroso, uma pena, que, tão logo o contundente recital tenha finalizado, dezenas de pessoas apressadas se levantassem, quase em frenesi, para ir embora. E tudo diante do artista. Um corre-corre. Mas fica a lição: a paz que você procura está no silêncio que você não faz.

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