Música, política cultural e meios de comunicação

Alvaro Siviero

27 Setembro 2013 | 10h41

Fiquei no mais completo e perplexo silêncio ao assistir, em importante canal de TV, uma reportagem do telejornal sobre conhecido festival de rock que movimentou o Brasil nos últimos dias. A matéria mostrava imagens de pessoas pulando, bebendo e se beijando. Suadas. É a diversidade. A repórter, alegando o cansaço da platéia após tantos dias de show, decidiu entrevistar uma garota que, deitada, olhava para o céu, em suposto cansaço. Não se reparou que a entrevistada estava drogada. Ao tomar consciência do fato, com cara de feliz, tentando esconder o desconforto,  o microfone foi abordado com linguagem chiclete, onde as câmeras ouviam a entrevistadora afirmar que tudo estava “super legal”. Tudo ao vivo.

Engana-se quem entende a Música Clássica, igualmente aberta à diversidade, como elitista. Sensibilidade não está vinculada a classe social. Conheço muitas pessoas de baixo poder aquisitivo que perdem a cabeça por Beethoven.

Engana-se quem vê a música de concerto como oposto à música popular. Na Áustria, música popular é Mozart. É o nível cultural de um povo que parametriza seus interesses. E os interesses do nosso Brasil bem que podiam ser diferentes. Poderiam apontar mais para o alto. Lembro-me de minha infância assistindo a célebre série “Concertos para a Juventude”, uma excelente iniciativa da Rede Globo de Televisão. Para quem sempre come arroz e feijão é importante – necessário – oferecer também salmão grelhado e vinho branco. E aí, sim, que cada um faça sua escolha. Hoje, infelizmente, muita pedra tem sido vendida como diamante. E o povo aceita.

Acerta quem constata o interesse crescente da população pela música de concerto. As salas e temporadas estão lotadas. Há demanda. Há muita demanda. Há uma tomada de consciência – e tenho verificado isso em diversas cidades e países onde me apresento – de que o entretenimento pode estar aliado ao enriquecimento pessoal.  E é aqui que exerce um papel fundamental os meios de comunicação. Ibope, à custa de valores, não leva muito longe. Promover, em busca de audiência, o mero entretenimento, esquecendo-se do papel de formadores de opinião, é assinar um atestado de incapacidade. Programas que promovem “achismos” e papos desarticulados de fundamentação, onde a voz da maioria se torna, infelizmente, sinônimo de verdade, não faz crescer audiência. Existe discernimento nas pessoas.

Acerta quem afirma que é a cultura quem fornece elementos para decidirmos melhor. Não decidimos corretamente quando faltam elementos para a decisão. Informar e formar, portanto, é permitir tomadas de decisões acertadas. É livre quem decide errado? Ser livre é decidir qualquer coisa? Será que não falta mais critério na eleição de pautas que enriqueçam, de fato, a vida das pessoas?

Cachorro gosta de roer osso, e algumas políticas culturais dão o desejado osso para que seja roído. Mas chegou o momento de um bom pedaço de carne. É mais atrativo e nutre melhor. Comprovo isso na incrível quantidade de emails que recebo diariamente. Há um clamor que pede uma nova cultura.

Por que não?

 

 

Em tempo: fica minha sugestão da Sinfonia do Novo Mundo (título sugestivo, não?), de Dvorak, regida pelo excelente Gustavo Dudamel, como aperitivo a essa mudança de rumos. Enternece, especialmente, o solo do clarinete a partir do minuto 1:55 com a consumação do tema em 2:50. E o Novo Mundo é pedido aos gritos entre 10:35 e 11:35. Bom proveito!

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