Música, cérebro e piano: como se fabrica um gênio?

Alvaro Siviero

12 de abril de 2012 | 22h12

O documentário Alfred Brendel in Portrait caiu em minhas mãos. O músico austríaco faz uma série de contundentes declarações sobre sua exímia carreira pianística, sua vida pessoal, sobre tantos desafios enfrentados, sempre com uma pitada de humor e certa dose de  ironia. Tudo muito interessante. O discurso de Brendel convence.

Um músico (que não é o mesmo que um tocador de instrumento) possui qualidades que o diferenciam dos demais. Não é que ele seja melhor, ou pior:  é diferente. Essas diferenças vão muito além de uma simples visão do mundo: falo aqui da existência de um diferencial cerebral. Isso mesmo, o cérebro de uma pessoa em contato com a música é diferente. A diferença é somática. O cérebro de um músico “em ação” (um pianista, por exemplo) deve ser capaz de preparar seus dedos e sensibilidade para as próximas notas a serem interpretadas, sem esquecer do momento presente  que, por sua vez, deve ser uma reação ao que acabou de ser interpretado. Tudo ao mesmo tempo. Neste jogo, sensibilidade e intelecto devem caminhar juntos: o intelecto atuando como fator controlador e a sensibilidade, filtrada e refinada pela ação intelectual, evita interpretações amadoras, “diletantes”.  Quando o artista domina a obra em detalhe e perfeição, a obra domina o artista.

É claro que uma pessoa que deseja ser um grande músico deve fomentar esses desejos, mas sem nunca perder de vista a distância real que existe entre desejo e realidade. Explico-me: um típico europeu germânico, racional, “frio” e cumpridor, mesmo se empenhando em reproduzir o ritmo do nosso samba, conseguirá fazê-lo, mas sem aquela força e ginga que os brasileiros naturalmente temos. Mesmo após diversas horas de estudo, o sambinha produzido pelo europeu será correto, protocolar, acadêmico. Mas não será o samba que conhecemos. Pois bem, a música pede esforço, mas presume a existência de uma facilidade, de uma conaturalidade, de um dom. E o dom não se adquire pelo estudo ou empenho. O video abaixo, que aconselho vivamente, faz pensar. E muito.

Todas as vezes que alguém sarcasticamente comenta ” fulano é artista”, com a finalidade de justificar uma falha ou imprecisão que um suposto artista tenha cometido (e que tantas outras pessoas igualmente cometem), penso: se essa pessoa fosse um pouco menos rude entenderia que as pessoas são diferentes, e é precisamente essa diferença – também a encontrada no artista –  que permite a existência das artes na vida humana. E o interessante é que nunca falhei em minha análise.

 

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