Música caótica

Música caótica

Alvaro Siviero

17 de maio de 2015 | 12h30

caos

Era evidente a falta de conexão entre aquele professor de matemática e seus alunos. Aquela aula de álgebra linear poderia ser chamada de tudo, menos de aula. O projetor jorrava uma avalanche de fórmulas e matrizes vetoriais para tudo quanto era lado, um verdadeiro pandemônio.  É melhor nem lembrar. Um caos. Enquanto alguns cochilavam e outros conversavam, o professor continuava falando com as paredes. Por fim, o dito cujo disparou a pergunta fatal: “Alguma dúvida?” E a reposta veio como risada de alguns e silêncio de todos os outros. Até que um dos alunos disse: “Professor, eu nem sei o que é dúvida”. Senti vergonha alheia. E aprendi uma lição importante: conteúdo não se empurra goela abaixo.

Movidos por um válido desejo de desafio musical pessoal, muitos artistas embrenham-se em apresentações pouco acessíveis, herméticas e até mesmo indigestas, não pela escolha do repertório em si, mas pela ausência de interface com o público e pelo descuido da forma como a informação é veiculada. Como no caso do professor de matemática, a falta de conexão afasta o ouvinte, rotula a música de concerto e cria barreiras.

Recentemente, em um desses países culturalmente “evoluídos”, presenciei o seguinte comentário feito por um senhor elegante, assinante fixo da temporada há anos: “What a boring concert!” (Que concerto entediante!). Naquela noite fria e chuvosa, seria um erro debitar o conteúdo do comentário à má vontade ou ao “baixo nível cultural” da plateia. Recentemente, aqui no Brasil, o excelente pianista francês Pierre-Laurent Aimard, para delírio dos intelectuais, apresentou um programa que alternou prelúdios e fugas de Bach com obras de Kurtag, Messiaen e Ligeti. Foram quase 2 horas de pura audácia musical que conviveram, infelizmente, com uma plateia em grande parte despreparada. Vi gente conectada ao Facebook, conversas paralelas, inadvertidos cochilos e, até mesmo, ao abandono do espetáculo por parte de diversos dos presentes. Ao final da primeira parte, na primeira fila, o casal do Facebook levantou-se para aplaudir de pé ao mesmo tempo que, para meu espanto, gritava sonoros “Bravo!”. Não os encontrei na segunda parte do programa.

O válido desejo de elaborar um repertório que seja um desafio musical deve receber um cuidado redobrado. Tudo deve estar balanceado. A palavra de ordem aqui é equilíbrio. Repertórios densos e programações desconectadas podem se apresentar como um verdadeiro tiro no pé que, ao invés de cativar, afastam. Uma criança não nasce comendo um churrasco, por mais saboroso que seja. Um não iniciado na leitura dificilmente aproveitará um livro calhamaço de filosofia grega: nada contra a filosofia grega, mas tudo contra a dosagem. E assim é a vida: o salgado contrabalança o doce, um prato de salada contrabalança a travessa de cuscuz e massas. Frutas contrabalançam o pudim de pão açucarado.  

Temos, sim, que ousar. Um bom concerto não é aquele que oferece sempre do mesmo. No entanto, preocupa a desconexão que pode ser a responsável pela criação de uma nova geração de público de fachada, de aparências, destituído de conteúdo. Não confundamos um concerto com evento social. O povo brasileiro, independentemente de suas condições culturais incipientes e discutíveis, está aberto ao crescimento. Quer ouvir. Quer aprender. Equilíbrio com ousadia: fica a sugestão.