Música: a religião em alta

Alvaro Siviero

21 de julho de 2013 | 16h57

Insinua-se, em alguns setores da opinião, uma inquietante prevenção contra a presença pública da religião. Procura-se a defesa de espaços públicos neutros, “laicos”, livres de contaminações religiosas. Encontra-se de tudo: há quem afirme (como presenciei nas redes sociais) que “se o feto tem seus direitos, quero que meu baço também tenha”. Já vi gente – coerente no raciocínio “laico” – que sugeriu arrancar o Corcovado. Outros sugeriram mudar os nomes das estações de metrô de SP: Santa Cruz, São Judas, Conceição, Paraíso, São Joaquim, Sé, Santana, São Bento… Há também quem permita a liberdade religiosa desde que não seja manifestada publicamente. E a sensibilidade “laica” vai mais longe: Lúcia Dahab, professora pública, depois de se converter ao maometanismo, em 1995, foi proibida de usar o véu islâmico. A advogada muçulmana Zoubida Barik, em 2009, foi expulsa do estrado pelo juiz por vestir esse véu. É curioso que, numa sociedade em que cada um se veste como lhe dá na veneta, se espalhe uma ideia que vem a dizer: “Vista-se como quiser, desde que não seja porque o manda sua religião”.

Igreja (poder espiritual) e Estado (poder temporal) são realidades distintas. O fato, desenvolvido com maestria pelo cientista político Ibañez Langlois, mostra que não pertence ao poder espiritual a criação de vínculos com a direita, ou com a esquerda, ou com o centro. Sua diretriz é outra, árdua: formar consciências para que façam suas escolhas éticas e morais com total liberdade e de forma acertada, do tipo que for. Igreja não determina partido ou candidato.  Escolhas como essa – entre tantas outras – sempre será exercício de responsabilidade individual, de gente amadurecida, consciente. E, conclui Langlois, é precisamente aí que se encontra o alicerce de uma democracia liberal, onde a laicidade é respeitada e valorizada. Laicismo, no entanto, é algo muito diferente. É a recusa em aceitar que um cidadão participe legitimamente dos debates morais da atualidade – do tipo que for – pelo simples fato de possuir uma crença religiosa, de ter fé. Um cidadão desautorizado. Em outras palavras, o que busca o laicismo não é a legítima separação que deve existir entre Igreja e Estado mas, como nota dissonante, a criação de um Estado ateu. Em nome da “democracia” (com aspas, mais uma vez), o laicismo não poderia ser mais antidemocrático.

A Música – como sempre – apresenta-se como oásis de união, de respeito, onde compositores não só explicitam sua religiosidade (e são respeitados por isso) mas a proclamam aos quatro ventos. Bach em suas Cantatas, em sua Missa em Si menor, em suas Paixão segundo São Mateus e Paixão segundo São João, comove e transforma sons em ato de louvor explicito a Deus: em muitos dos manuscritos do gênio alemão vê-se a inscrição S.D.G. (Soli Deo Gloria). Mozart com sua Missa de Requiem, Missa da Coroação K317, Missa Brevis, Missa Solemnis dá um show ao mostrar que o conceito de criatura não é, como muitos pensam, o mesmo que o de Criador. Criatura é criatura.  Brahms, em seu Ein deutsches Requiem, Op.45  questiona com veemência o ouvinte sobre o sentido da vida e da morte, principalmente para aqueles que não tem tempo para nada: “Sabe o que vai acontecer se você morrer hoje? Nada! Amanhã o sol vai nascer do mesmo jeito…”. Beethoven, em sua Missa Solemnis Op.123, proclama liturgicamente os anseios de sua Sinfonia n.9. Vivaldi, Haydn, Liszt, Schubert… uma lista interminável. Se o laicismo de alguns agnósticos de plantão encardir a pureza e simplicidade da boa música, será que a nota SI deverá mudar de nome? (Sancte Ioannes). Só faltava…

E fica a questão: em que creem os que não creem?

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