Musa do piano desembarca no Brasil

Musa do piano desembarca no Brasil

Alvaro Siviero

08 de agosto de 2014 | 15h56

Pode parecer simplório, mas uma das grandes diferenças entre o novo rico e aquele que já nasceu em berço esplêndido, folheado a ouro, é a necessidade de comprovar a renda. O primeiro cacareja e o segundo é discreto. O primeiro é afetado enquanto o segundo é natural, simples, não tem o que provar.  Claro que a regra não é geral. Toda regra tem sua exceção. No entanto, a comparação se aplica perfeitamente à pianista russa Elisso Virsaladze, que aterrissa no Brasil para recitais em São Paulo (Sala São Paulo) nos dias 11 e 13 de agosto, às 21h, e no Rio de Janeiro (Theatro Municipal), no dia 14, às 20:30h.

Nascida na Geórgia, em 1942, mesmo não possuindo todo o reconhecimento midiático que lhe é devido, Virsaladze está entre as mais respeitadas artistas do teclado. Talvez esteja por não estar preocupada com isso. Sua preocupação é única: estar imersa na sua arte. Uma artista que nasceu rica, cujo berço esplêndido foi sua avó, excepcional pianista e professora de música no Conservatório de Tbilisi, sua cidade natal, com quem Virsaladze aprofundou seus estudos antes de seguir para o Conservatório de Moscou, onde recebeu orientação do notável professor Heinrich Neuhaus, transmitindo-lhe a grande tradição da escola russa de piano. Um contemporâneo seu de profissão, nada mais nada menos que o pianista Sviatoslav Richter, chegou a afirmar ser ela uma das maiores intérpretes de Schumann. Aos 20 anos conquistou o terceiro lugar no Concurso Tchaikovsky e, em 1966, aos 24 anos, a primeira colocação no Schumann International Competition em Zwickau, Alemanha. Pronto. Sua sólida carreira internacional já estava traçada. Hoje é também referência em Mozart, Beethoven, Schubert, Chopin, Brahms, Rachmaninov e Prokofiev.

“Sinto não ter podido espalhar ainda mais a música pelo mundo devido à situação política do momento em que vivi”, afirmou-me de modo sereno durante longa e divertida conversa que travamos ao telefone. “Foi nesse momento que percebi que, quase que como uma necessidade, deveria voltar-me também ao ensino, semeando às futuras gerações tud0 o que recebi. O músico, quando verdadeiro, traz dentro de si a semente da doação. No palco estamos para nos doar. E quem doa se enriquece. Doar é enriquecer-se”. E foi em 1967 que surgiu a decisão de entregar-se ao ensino de música, no próprio Conservatório de Moscou. Entre seus alunos contam-se verdadeiros expoentes da atualidade, como o russo Boris Berezovsky. “Para tanto, não posso e nem quero ter minha agenda sobrecarregada de inúmeros compromissos ou viagens. Limito-me, hoje, a 35 concertos por ano”. E é isso o que o público paulistano poderá presenciar na série de concertos internacionais da Sociedade de Cultura Artística.

Nos tempos mais tranquilos, Virsaladze procura aumentar a já extensa lista de gravações realizadas pelos selos Melodiya e EuroArts, além de se dedicar extensamente à música de câmara em diversos festivais pelos quatro pontos cardeais e à posição de juri nos mais importantes concursos de piano. Em 1995, paralelamente à função pedagógica no Conservatório de Moscou, iniciou sua carreira docente na Hochschule für Musik und Theater, em Munique.

O programa previsto – Schumann, Brahms, Mozart e Haydn – traz uma curiosidade: sua interpretação dos Estudos Sinfônicos, Op.13, de Schumann, previsto no repertório do recital, lhe renderam a primeira posição no Schumann International Competition. Fica a curiosidade que será saciada aos que ali estiverem presentes.

Dizem que há coisas na vida que, se não vividas, podem causar arrependimento. Pois bem, se isso é verdade, fica aí a sugestão.

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