Mozart: um mistério e um crânio no museu.

Mozart: um mistério e um crânio no museu.

Alvaro Siviero

31 Maio 2012 | 16h39

São diversos os mistérios  que rondam a morte de Mozart. As informações são controversas, desconectadas, vagas e confusas. Sabemos que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) faleceu na madrugada do dia 05 de dezembro de 1791 e que a notícia de seu falecimento muito rapidamente se espalhou por toda Viena, o que nos leva a crer, portanto, que Mozart era uma personalidade reconhecida. Seu discípulo Süssmayr permaneceu por longas horas velando o cadáver e um molde, que infelizmente se perdeu, foi tirado de seu rosto. Foi aconselhado à esposa Constanze Mozart, pelo barão van Swieten (supostamente amigo de Mozart), que gastassem o mínimo com o enterro.

No dia 06 de dezembro, o modesto caixão foi levado por dois homens à Igreja de Santo Estevão, onde permaneceu na capela mortuária, velado agora por van Swieten, pelo compositor Antonio Salieri, o empresário Schkaneder e Albrechtsberger (ex-professor de Beethoven). O enterro ocorreu somente no dia seguinte, dia 07 de dezembro, devido a uma forte nevasca ocorrida no dia anterior (o que parece não ser verdade). Segundo Stanley Sadie, em seu livro sobre o compositor, o relato de uma tempestade de neve seria falso: o dia era calmo e a temperatura amena. Sabe-se, igualmente, que o compositor foi enterrado como indigente, em vala comum. Fica aqui mais uma questão: qual o motivo de ser tratar como indigente quem tanto reconhecimento recebeu em vida?

O autor igualmente relata que os costumes vienenses dispensavam o acompanhamento ao cemitério, o que justificaria a ausência da esposa. No entanto, sabe-se que a esposa Constanze, no dia 08 de dezembro, teria procurado a sepultura do marido, e sem sucesso: ninguém lhe soubera informar o local exato do sepultamento. Outros afirmam (outra surpresa!) que somente 17 anos após a morte de Mozart (ou seja, em 1808), Constanze teria visitado o cemitério para colocar um cruz sobre o local que supostamente seria a campa de Mozart, e onde hoje  se eleva a enorme e reverenciada estátua do compositor no cemitério central de Viena (veja foto abaixo, com o túmulo de Beethoven à esquerda e Schubert à direita). Fica outra pergunta, que sempre me faço: como é que ninguém (assim mesmo, nin-guém!), nem mesmo os amigos mais próximos ou familiares, buscaram certificar-se do local onde o corpo de Mozart havia sido jogado? (assim mesmo, jogado). Para mim, todo o relato é extremamente entrecortado.

Minha surpresa, e até certa indignação, somente cresceram quando tomei conhecimento de que diversos “pesquisadores” afirmam ser de Mozart um crânio que se encontra no Museu de Salzburg. A relíquia foi oferecida à instituição em 1842, ou seja, 51 anos após a morte do compositor austríaco. A justificativa dada por aqueles a quem questionei no Museu, sem maiores pudores, é a de que a identificação do crânio foi feita por comparação com a arcada dentária existente em diversas pinturas – portraits – do compositor. Pergunta:  quem foi o dentista, ou o entendido em arcada dentária, ou seja lá quem for, que garante a veracidade? Ao receber a explicação pensei: “What the hell is going on?”

Imagine – e não quero que agora você seja somente um leitor passivo – que um parente seu, ou alguém que você muito estime, falece, e não há o menor paradeiro de onde ele possa estar sepultado. Isso já seria doloroso. No caso de Mozart, no entanto, o desencontro de informações sobre alguém que foi referência musical na Europa faz-nos estar diante, sem dúvida, de um conjunto de incógnitas e mistérios.

O premiado filme Amadeus mostra a cena de modo crú. Remete-nos à própria vida, à própria morte.

“Já viste em uma tarde triste de outono caírem as folhas de uma árvore? Pois bem, assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu”.

 

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