Meu encontro com “Salieri”, em Roma.

Alvaro Siviero

18 de abril de 2012 | 15h57

Em 2008, tive a alegria de representar o Brasil no histórico Encontro Mundial de Artistas, em Roma. Um dos diversos momentos mágicos deste workshop ocorreu na Capela Sistina, quando o próprio Bento XVI, ao som do Glória de Vivaldi interpretado pelo próprio coro da capela, proferiu seu discurso diante do Juízo Final de Michelangelo. Nada mais, nada menos. Um momento único. Eu era o único brasileiro. Pessoas de diversas raças, credos religiosos e áreas de atuação (arquitetura, música, pintura, cinema, literatura, entre outros) compartilhavam algo difícil de descrever. Semanas antes de meu embarque recebi a lista dos participantes: os arquitetos Santiago Calatrava e Daniel Libeskind, a escritora Susana Tammaro, os pianistas Angela Hewitt (vide foto abaixo) e Michele Campanella, Andrea Bocceli, entre tantos outros, foram alguns com a qual dividi momentos inesquecíveis. Um dos nomes desta lista que especialmente me interessava era o ator Murray Abraham, imortalizado por sua impecável atuação como Salieri no premiado filme Amadeus, o que lhe rendeu o oscar de melhor ator naquele ano.

Também levou a estatueta o diretor Milos Forman, que utilizou como roteiro a peça homônima escrita pelo próprio roteirista do filme, Peter Schaffer. As origens, no entanto, do duelo Mozart x Salieri retratado no filme – e todas as conseqüências da inveja de Salieri por Mozart – radicam-se no texto Mozart e Salieri do poeta russo Alexander Pushkin, que também levou o músico Rimsky-Korsakow a escrever ópera baseada no tema. Como se pode perceber, quando o assunto é inveja… (ler artigo).

Mas o compositor Antonio Salieri (Legnano, 1750 – Viena, 1825), seis anos mais velho que Mozart, não é o que o filme retrata. Salieri  era senhor absoluto da música e compositor oficial da corte do imperador José II da Áustria (por quase 40 anos) quando Mozart mudou-se para Viena. , compôs mais de 40 óperas, orientou músicos do porte de Beethoven, Czerny, Liszt, Hummel, Schubert, entre outros e, contrariando a versão cinéfila, admirava Mozart, o qual considerava um gênio.

Mas o que o diretor Milos Forman mesmo queria – e conseguiu! – foi fazer da música o ator principal do filme. Tudo gira em torno dela. E o filme o que pretende é debruçar-se sobre ela. E conseguiu. Mas sobrou no filme – em minha visão – aquelas gargalhadas frívolas e insistentes retratando um Mozart esvaziado. Isso não era necessário. E necessariamente também não corresponde à verdade.

Aqui, uma das cenas mais evidentes do início da relação tumultuosa entre Salieri e Mozart, como retratado no filme.

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