Meryl Streep e a paixão pela música

Alvaro Siviero

12 de março de 2012 | 16h42

Ainda sob o embalo da cerimônia de premiação do Oscar, assisti neste final de semana um filme com a “Dama de Ferro”. Desnecessário comentar a perfeição com que Meryl Streep incorpora a personagem Roberta Guaspari no filme Música do Coração (Music of the Heart, 1999), no papel de uma professora de violino que, apesar de todas as dificuldades e lutando contra tudo e contra todos, revoluciona o ensino do instrumento em uma escola do Harlem, incutindo em todos os que dela se aproximam um amor visível pela música clássica, a única meta educacional desta devotada professora. Célebre é a cena filmada no Carnegie Hall, em NY. Após diversas performances “menores” de seus alunos, já está construído o alicerce necessário para que os ouvidos da platéia recebam a transcrição do tocante Concerto de Bach para dois violinos (com direito à participação de renomados violinistas como Isaac Stern, Isaac Perlman, Joshua Bell, entre outros). É a materialização do objetivo desta decidida mulher: o cume artístico que é atingido quando os gênios musicais – Bach, Beethoven, Chopin, Prokofiev, somente para citar alguns – se manifestam.

Em entrevista concedida durante as filmagens, a atriz Meryl Streep afirma que a música clássica estimula o raciocínio lógico, aumenta o poder de comunicação e amadurece afetivamente o ser humano. E o filme mostra isso, jogando luz em famílias que se transformam pela música, alunos que se confidenciam com a professora-amiga e uma enorme quantidade de pessoas que enfrentam preconceitos mal resolvidos. Estes são alguns dos ingredientes deste filme. Tudo regado a muita música.  Vivamente aconselho.

A educação musical é uma necessidade. Projetos educacionais como o da Sinfônica de Heliópolis, o projeto Neojibá (Bahia), o nascente projeto na região de Paraisópolis, entre alguns outros, comprovam esse fato. Onde estariam hoje essas centenas de alunos oriundos de classes sociais menos favorecidas? Que perspectiva de vida teriam? Acredito que este investimento educacional através da música, realizado de modo sólido e programático, deveria ser também uma realidade nacional no ensino brasileiro. No período em que estive em Viena, verifiquei que a carga horária dedicada à música em diversas escolas públicas chegava a 8h semanais, equivalente (ou superior) à carga horária, em muitas escolas nossas, dedicada às disciplinas de matemática ou português. Não acredito que os austríacos sejam profissionalmente mais despreparados que o povo brasileiro por esse motivo.

Que venham muitas Robertas Guasparis. E que a política educacional brasileira atente a este aspecto.

 

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