Maurizio Pollini: haja paciência!

Alvaro Siviero

28 Julho 2012 | 09h21

Um pequeno celular registrou o descontrole acalorado do pianista italiano Maurizio Pollini durante um ensaio. As imagens, que rapidamente correram o mundo, causaram comoção. O contraste entre o respeito artístico conquistado pelo artista-ídolo e seus gritos tornaram-se bizarros e originaram diversos comentários. Apareceu de tudo. Houve quem afirmasse que a reação foi firme e “democrática”(?), alguns comentaram sobre o desrespeito do funcionário pela música, muitíssimos outros sobre o desrespeito do pianista alegando que o ser humano antecede e merece maior respeito que qualquer música, algumas análises chegaram a afirmar que a vaidade arranhada do pianista foi quem provocou o vexame (houve inclusive comparações com atitudes de outros artistas, igualmente suscetibilizados em situações de desrespeito). Uma enxurrada de comentários também abordou o maestro, reprovando o “deboche infantilizado” (esse foi um dos termos usados) após a eclosão da situação. Enfim, tudo caiu muito mal.

A falta de certo bom senso e desconhecimento por parte do funcionário, evidentemente, não foi proposital. Mas contrariou. E muito. “Haja paciência!”, afirmaram outros.  São sempre as contrariedades que nos fazem perder a paciência. Se nos perguntassem de chofre: “Por que você ficou impaciente?”, logo culparíamos a contrariedade. A palavra impaciência (do verbo latino pati, padecer), em sua essência, significa essa incapacidade de saber padecer. O impaciente é aquele que não sabe aceitar ou aceita de má vontade aquilo que lhe contraria.

No entanto, nem todo mundo fica impaciente diante das mesmas coisas: há algo dentro de nós que nos torna incapazes de receber determinadas contrariedades. Para alguns pode ser o trânsito, para outros o atraso de uma resposta, uma chuva imprevista, o trabalho que é constantemente interrompido… ou o trabalho inesperado, e que temos que realizar. Quase sempre acompanhada da ira – em forma de irritações, brusquidão, raiva ou cólera, perda de controle emocional e autodomínio –, a impaciência revela o nosso lado fraco. Revela quem somos.

Alguns autores – acabei me interessando um pouco sobre o assunto – afirmam que há impaciências provocadas pelos outros (um modo desagradável de falar, de não responder, de se atrasar, de se impor…), existem as procedentes de nós mesmos (“Não me agüento, esqueci outra vez a chave!”, “Por que sempre gaguejo ao falar diante dos outros?”) e existem também aquelas que decorrem das circunstâncias (“Já faz sete meses que estou sem emprego”, “Justamente quando fui tirar férias veio essa frente fria”). Todas elas, independentemente da origem, identificam o calibre interior de cada um. As mesmas dificuldades que afundam alguns transformam outros em líderes. O problema não está, somente, nas dificuldades. O problema está também em nós.

 

 

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