Marc-André Hamelin na Sala São Paulo

Alvaro Siviero

01 de agosto de 2012 | 23h08

Estou convencido de ter presenciado ontem um dos grandes momentos musicais da história da Sala São Paulo: o recital do pianista canadense Marc-André Hamelin. Detentor de técnica impecável, Hamelin deu seu recado. Apoiado em repertório eclético – Alban Berg, Fauré, Villa-Lobos e Rachmaninov -, os presentes comprovaram que o mito Hamelin tem motivos de sobra para ser mitificado.  Ocorreu, durante a execução do pouco tocado Rudepoema, de Villa-Lobos, algo inusitado: percebi que, entre piano e pianista, eu havia perdido o controle de quem acionava e de quem era acionado. Piano e pianista, um diante do outro, pareciam fisicamente se complementar. Mais do que isso, tive a clara impressão de que o dono da bola era o piano. Hamelin somente o obedecia. E acabou ensinando a nós, brasileiros, como se interpreta Villa-Lobos. Seu Fauré, galante, leve, viajava pelos quatro cantos da sala. Ao final da primeira parte do programa, iniciada com sólida versão da Sonata n.1 do contemporâneo Alban Berg, a platéia ganhou consciência do que tinha visto. E, de pé, contundentemente, registrou um ardido aplauso para aquele momento.

A segunda parte do programa iniciou com um conjunto de variações, de sua autoria, sobre o Capricho n.24 de Paganini. Apareceu de tudo: jazz, trechos da quinta sinfonia de Beethoven (sim, aquela do tchã tchã tchã tchã), a célebre La Campanella e pedaços entrecortados de valsas vienenses. Uma senhora ao meu lado, que acompanhava com o olhar cada mínimo detalhe, chegou a segurar-se na cadeira, beirando o desequilíbrio. Em meio a um silêncio memorável por parte da platéia, os dedos de Hamelin se multiplicavam. O respeito do pianista pela arte educou forçosa e imediatamente aqueles que, talvez menos preparados, estivessem na sala por mera curiosidade. E quando o fôlego já havia se esgotado, iniciou-se outro tour de force pianístico: Rachmaninov, incluindo sua segunda sonata para piano. Indescritível. A sala veio abaixo. Como “token of gratitude”, Debussy e Radamés Gnatalli.

Nos próximos dias 02, 03 e 04, Hamelin estará solando o Concerto n.19 para piano e orquestra, de Mozart, frente à OSESP. E, quem sabe, após seu Mozart ainda haja espaço para outros “token of gratitude”.

Contaram-me certa vez que a verdade artística sempre convence, impacta. Lembrei-me deste comentário quando, após o recital, deparei-me com o silêncio de alguns, com uma falta de desejo de falar de outros, um olhar mais distante e reflexivo de terceiros, ou até mesmo a euforia de muitos que, ainda em êxtase, vinham me cumprimentar. Eu optei pelo silêncio.

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