Lang Lang & Metallica no Grammy

Alvaro Siviero

02 de fevereiro de 2014 | 16h17

A apresentação do pianista chinês Lang Lang com o grupo de rock Metallica durante a premiação do último Grammy provocou uma onda de discussão e comentários. A grande maioria, contrária, afirmava que esse tipo de auto-promoção não deveria ser buscada por um pianista internacionalmente reconhecido. Comentários diversos acusavam-no de comercial e pedante. Outros alegavam as diferenças entre o rock e a música erudita. Outros o mau gosto da organização do evento em tal escolha. Enfim, em um mundo onde liberdade tornou-se sinônimo de falar (e fazer) o que for, as saraivadas começaram a ganhar contornos confusos e contraditórios. Gostaria de dizer o que penso. 

1. Um grande artista da música de concerto não está impedido de unir-se a pessoas de outra vertente musical. É um fato de que quem possui a habilidade técnica e musical para tocar Chopin, Rachmaninov ou Brahms encontra maior facilidade em outros gêneros musicais. Lang Lang usou sua arte a serviço da música de rock. E rock de qualidade foi feito. Isso é o que importa. Algo bastante diferente, talvez, teria ocorrido se a iniciativa partisse do Metallica em interpretar Schubert. Lang Lang e Metallica se dispuseram a fazer rock. E o fizeram. Quando existe qualidade e competência artística não se deve questionar o que está sendo interpretado. Ouve-se e disfruta-se. Um grande artista sempre é aberto a diversas vertentes musicais, mesmo que acadêmicos de plantão se escandalizem.

2. A falta de transparência na intenção de um artista (desproporção musical?) é o que realmente pode incomodar. O que leva um músico a usar um violino Stradivarius – utilizado para ápices sonoros – em adaptações fake de shows de entretenimento? O que leva um maestro a vestir uma casaca para reger uma escola de samba? Além de não ser necessário – até um tanto brega – a iniciativa pode confundir os desinformados. Espero que não tenha passado pela cabeça dos que estavam presente na premiação do Grammy que Lang Lang credenciou o Metallica a ser um grupo de música de concerto. Espero, também, que não digam que assistiram a um concerto do pianista Lang Lang, dado que o rock do Metallica entrou na área da música de concerto. Esta confusão nos conceitos pode causar indigestão. Um bom primeiro prato não é nem melhor ou pior do que uma boa sobremesa. Não se trata de comparar. Trata-se de não confundir. E há quem confunda xícara com chácara, tomada com focinho de porco e Jesus com Genésio. E acaba confundindo os outros.

3. Divulgação não é o mesmo que democratização. Imaginem uma pessoa, amante do bom vinho, que se dispõe a preparar pessoas na arte e divulgação da degustação oferecendo, inicialmente, suco de uva. Um erro. Alguns, subestimando a capacidade alheia, oferecem pastiches adaptados de originais para “iniciantes”, esquecendo que somente crescemos intelectualmente quando estamos expostos a níveis culturais superiores ao patamar ao qual nos encontramos. Um vinho de boa safra é indiscutivelmente superior a um bom copo de suco de uva. Mas há momentos para tudo, também para o suco de uva.

4. As obras que se eternizam estão sempre apoiadas no transcendente e na verdade. A arte meramente hormonal, sensitiva, destituída de transcendência não se perpetua. A arte apelativa pode vender, mas não enriquecer a antropologia humana. E se não há enriquecimento não há arte. Apelação é atestado de incompetência. E o tempo se encarrega de colocar cada coisa em seu lugar. Essa transcendência – que com tanta força se encontra na música de concerto – é que todos buscamos. Afinal de contas, o que buscamos na arte é a felicidade, o sentido da vida.

5. Cuidado com juízos críticos. Julgar – ainda mais sem a devida informação – pode ser sempre perigoso. E, como diz o literato, a ignorância é sempre atrevida.

 

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