Inteligência e liderança musical

Alvaro Siviero

20 de março de 2013 | 11h01

Iñigo Pirfano (Bilbao, 1973), maestro com a qual já atuei como solista em diversas ocasiões, é autor top100 do site de vendas Amazon. Laureado com o prestigioso prêmio europeu Rafael Del Pino “por sua capacidade de compreensão da cultura e a indústria da cultura de uma maneira flexível e imaginativa”, acaba de lançar seu novo best-seller Inteligência Musical. Fundador da OAM-Orquestra Acadêmica de Madrid, filho do renomado e já falecido maestro Pedro Pirfano e contando com concorrida agenda de concertos, Pirfano revelou-se, em longa conversa que tivemos em um café madrilenho, uma figura instigante. Nesta entrevista você poderá conhecer a pessoa que se esconde por detrás do maestro.

Quais foram os primeiros passos na criação de sua própria formação, a OAM-Orquestra Acadêmica de Madrid? Chamaram-no de louco?

Os primeiros passos sempre são complicados no momento em que se decide colocar de pé qualquer iniciativa que tenha certa entidade. Muita gente me advertia (com essa prudência que muitas vezes é covardia ou, pelo menos, falta de audácia) sobre a dificuldade do projeto, da difícil situação do mercado e da enorme competência de outras formações. Falavam-me que eu viraria uma “estrela”. No entanto, tenho em mim que um empreendedor é um outsider, que não joga a toalha e que segue adiante com o seu sonho, custe o que custar. Constato agora que valeu a pena. Iniciei esse sonho faz 10 anos e hoje a OAM goza de reconhecido prestígio.

O que é exercer a liderança à frente de um grupo sinfônico? Qual o segredo do sucesso da OAM?

O entusiasmo. Somente é possível liderar uma equipe tão complexa e peculiar como uma orquestra quando existe o convencimento, sincero e profundo, sobre o que se busca. Na Espanha, e isso ocorre também em outros países, não sabemos fazer quase nada sem apoio institucional. Somos os campeões da subvenção. Não digo que a subvenção não seja importante, mas a situação pela qual passamos cria uma nova abertura: nada faz tanto mal ao homem quanto a opulência, ao qual já havíamos nos acostumado. Mas o verdadeiramente nuclear é o talento, a imaginação e a qualidade das propostas que temos. Para mim, receber este galardão da Fundación Rafael Del Pino constitui o reconhecimento de que meu projeto não era somente um sonho ou uma loucura, mas uma realidade sólida e estável.

Você afirma que a cultura deve vir sem subvenção?

Não! (risos). É obrigação grave da classe política fomentar e apoiar a cultura, com o convencimento de que se trata de algo imprescindível: é a cultura que nos diferencia das bestas e que nos une como seres humanos. Você já percebeu como existe uma terrível falta de poesia no mundo? Por isso tanta gente está triste. Você já pensou como seria o mundo se as pessoas escutassem mais música e vissem menos televisão?

Qual o próximo passo?

O prêmio não é meramente um reconhecimento, mas um compromisso. Quero fazer, quase como quem tem uma missão, com que as pessoas entendam que ninguém fará por elas o que elas não fazem, que vale a pena empenhar o esforço naquilo que acreditamos. Chegou o momento do talento, da imaginação, do sonho, e também do esforço. Fascina-me o caso de Stravinsky nos anos de forçosa inatividade que passou na Suíça, após a Primeira Guerra Mundial: decidiu organizar um espetáculo com os únicos recursos que tinha ao seu redor. Uns poucos instrumentistas, alguns artistas exilados, uns adornos cênicos muito pobres… e assim nasce L’Histoire du Soldat, uma das obras musicais mais representativas e importantes do século XX. É o talento que me interessa: o daquele que não se queixa inutilmente e nem se detem diante das dificuldades. A OAM – como muitas outras iniciativas deste tipo – nunca recebeu o apoio de nenhuma instituição pública ou privada. Se tivéssemos esperado para começar a andar com ajudas não teríamos a centena de concertos de nossa agenda.

Faltam empreenderores no mundo da cultura?

Penso que sim. Como dizia Machado, fazemos caminho ao andar. Não creio que exista um território ou país favorável para o empreendimento.

Que música colocaria como trilha sonora para a situação econômica que hoje atravessa a Espanha?

A música possui um elemento transformador que muda as pessoas. Cada obra musical, profunda, entra em comunicação com o mais íntimo e pessoal que cada um de nós traz dentro de si. Em função da resposta que dermos (ou da não resposta) a esta interpelação, podemos melhorar (ou não) como pessoas. Como afirma Steiner, ela é de uma indiscrição total. Em função desta resposta, nossa vida trilhará seus próprios rumos. Há pessoas que refizeram suas vidas depois de um concerto.

A crise econômica pela qual passamos é real. Mas não podemos adotar uma atitude reducionista, como quem coloca seu nariz diante do muro. Não se trata desta crise, mas de qualquer crise: daquela pela qual passa uma pessoa, uma família, uma empresa, uma sociedade. São momentos duros, mas também de discernimento, de repensar no que temos feito e no que somos, no mal que fizemos a algumas pessoas (e não me refiro a questões meramente econômicas), em nossas omissões. E estas questões são as verdadeiras crises com as quais devemos nos deparar. Elas somente são resolvidas dentro do coração humano. É aí que a Música se apresenta como medicina. Como dizia Gustav Mahler, a música tem o incrível poder de fazer com que as inquietações e dúvidas deixem de ser tais, porque nos devolve o mais genuíno do ser humano. Nos faz ver que cada um de nós é irrepetível, único. E não há nada tão formoso quanto isso.

Cite um líder que o inspira no meio musical e outro no meio político

Do mundo musical, me interessa muito a figura de Claudio Abbado: alguém que soube ganhar o respeito dos melhores instrumentistas do mundo com seus modos amáveis e seu sorriso. Provoca a aesão imediata porque inspira una autenticidade luminosa. No mundo da política não consegui descobrir ninguém: creio que seja o setor onde as musas verteram menor talento.

Você é um profissional bem sucedido no mercado musical. Há algum limite para a evolução musical e o êxito do grupo e de seu trabalho?

A evolução da orquestra tem sido, efetivamente, excelente. No entanto, a evolução e o êxito que interessam não são aqueles que derivam do posicionamento do grupo no mercado musical. O que interessa é o amadurecimento humano que a música necessariamente deve provocar. E buscamos caminhar nesta direção. O restante é mera consequência. A orquestra possui um método de trabalho e som próprio, graças ao grau de implicação e cumplicidade que existe entre nós. Mais do que uma orquestra, somos um grupo de bons amigos fazendo música com o máximo nível artístico de que somos capazes. Amamos profundamente a música, nos conhecemos muito bem e nos queremos. Que mais podemos querer?

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