Insegurança, medo e coragem no palco

Alvaro Siviero

24 de junho de 2012 | 19h17

Não estamos aqui diante de um problema artístico, mas humano. Ao longo da vida, a evidência de nossas limitações afetivas, físicas, espirituais e intelectuais caminha de mãos dadas com uma necessidade indeclinável de superação. É como se, por um lado, o instinto de perfeição, beleza, felicidade e realização que temos nos engrandecesse mas, por outro, o contraste com a nossa realidade nos atormentasse. Quando experimentamos nossas limitações ou a minguada estatura da nossa personalidade, pode brotar no nosso íntimo uma insatisfação que, quando mal compreendida, pode converter-se em sentimento de inferioridade, de comparação ou de insegurança. Em sentido contrário, essa constatação pode ser também um estímulo para subirmos alto: John Kennedy, que sofria de sérios problemas de coluna, ou Franklin Roosevelt, que andava de cadeiras de rodas, não se sentiam inferiorizados por terem essas graves limitações físicas.  O que para uns é motivo de afundamento, inibição e medo, para outros é um verdadeiro desafio. É o mistério da liberdade humana.

Alguns – e isso acontece – escolhem um terceiro caminho: negam suas limitações e convencem-se de que sua personalidade real coincide com a criada pela imaginação. Diante do impulso essencial do homem para a unidade, a vítima tenta provar que sua personalidade fingida coincide com a personalidade real; ou, melhor, que sua personalidade real é a fingida. Aqui reside a falência artística. O artista é aquele que transmite a verdade da sua arte durante a performance, reflexo da verdade de vida. Esse artista comprometerá a música verdadeira.Não convencerá.

Quando a fonte de segurança artística baseia-se em aprovações externas, no que vão dizer de mim e na expectativa do sucesso ou do fracasso, estabelece-se o quadro da ansiedade, originada por um desajuste interno baseado, muitas vezes, no que pensarão de mim. É o caso, por exemplo, do artista que tem fama e teme perdê-la. Os ansiosos se esquecem de que a verdadeira segurança é consequência do ajuste com o que realmente somos e não da opinião dos outros sobre nós. O medo – algo diferente – é um temor específico gerado por algo que vem de fora de nós  trazendo inquietação, desassossego e alarme. A ansiedade origina-se

O homem seguro aceita-se a si mesmo:  seja eu capaz ou não de algo, seja eu pouco ou muito hábil, seja eu artisticamente inclinado mais aos compositores românticos ou seja tecnicamente despreparado para os compositores modernos, enfim, tudo caminha dentro de um quandro claro e aceite.
O homem seguro não tem medo de errar: simplicidade, transparência e espontaneidade são o melhor remédio para a tensão e timidez. Olhar as pupilas alheias como um espelho onde se reflete a nossa própria imagem denota um comportamento raquítico e decadente: cheira a mofo do próprio Eu, imobiliza, retrai, inibe e tranca a espontaneidade. Uma pessoa nessas condições não está preparada para pisar no palco.
O homem seguro abre-se aos outros: superar a insegurança implica esquecimento de si próprio. A preocupação excessiva com o sucesso pessoal e o contínuo retorno ao próprio Eu é o que traz consigo o medo do fracasso. A coragem para abrir-se traz consigo a abertura que dá coragem.

Um alto executivo confidenciava esses dias que o que falta em muitos profissionais não é competência técnica, mas competência humana. É claro que um artista responsável não ousa pisar no palco sem estar musicalmente preparado, mas que não esqueçamos que pouco valem os dedos ágeis de um artista quando o coração e a cabeça – onde está a música – ficaram parados no tempo, olhando a banda passar…

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