Hoje é o aniversário de Chopin

Hoje é o aniversário de Chopin

Alvaro Siviero

22 de fevereiro de 2019 | 10h25

Hoje é dia de aniversário, de celebração, de festa grande. Fiz questão de pessoalmente verificar esta informação  – controversa para alguns – indo a Brochów, vilarejo próximo a Zelazowa-Wola, local onde nasceu o compositor. Algumas buscas em sites e livros afirmam, indistintamente, serem as datas de 22 de fevereiro ou 01 de março a correta. Qual não foi minha alegria ao verificar ser o dia 22 de fevereiro o registrado nos livros da paróquia ao qual pertencia o compositor. Neste mesma igreja, que foi totalmente restaurada dentro das comemorações dos 200 anos do compositor em 2010, casaram-se os pais do compositor e Chopin recebeu o Batismo no dia 23 de abril (dia do meu aniversário, para minha surpresa e alegria! é mole?).

Nutro pelo aniversariante uma profunda admiração, quase um xodó. Seriam seus 209 anos. E são muitos os motivos que me levam a afirmar o que acabo de dizer. Em primeiro lugar, por saber que TODAS as suas obras (são 219 as catalogadas) foram escritas para piano ou tem no piano seu elemento principal, o que é enorme atrativo para qualquer pianista. Em segundo lugar, tive a grande sorte de conhecer e fazer música em tantos locais diretamente relacionados com a vida deste grande homem: lembro-me dos dias em Maiorca durante recital na Cartoixa de Valldemossa (Ilhas Baleares), dos recitais e concertos sinfônicos por cidades da Polônia (imaginem o que é um brasileiro interpretando Chopin na Polônia para poloneses!), visitas à sua casa natal em Zelazowa-Wola (Mazóvia), momentos de oração e reflexão na igreja em que seus pais se casaram e onde o pequeno Frycek foi batizado (Brochów), horas intermináveis diante de seu túmulo no cemitério de Père-Lachaise (Paris) e um sem fim de tantas outras situações impossíveis de serem descritas ou verbalizadas. Lembro-me especialmente neste momento de um recital realizado em Varsóvia onde tive a alegria de conhecer alguns membros da família Chopin…E em terceiro lugar, e isso é o que mais atinge a multidão interminável de fãs deste compositor, a música de Chopin carrega a enorme responsabilidade de estar escrita diretamente ao coração: suas melodias, harmonias e sentido rítmico criam essa convulsão emocional que só é capaz de descrever quem a vivencia.

Filho de Nicolau Chopin, um francês que havia se dirigido à Polônia em busca de dias melhores e que acabou conhecendo no solar dos Skarbekowa (Zelazowa-Wola) sua futura esposa, Justina Kzryzanowska, teve 3 irmãos: Luísa, Frederico, Isabel e Emília (as duas últimas bem mais jovens que os dois primeiros). O pequeno Frycek, como era conhecido, era pura alegria, bom humor, simplicidade. Repleto de um sentido de leveza, fazia caricaturas dos professores como ninguém, principalmente durante as aulas de matemática que não suportava. Fazia também charadas em polonês e francês, sua segunda língua, para seus amigos. Era também bom ator. No entanto, foi na música que seu talento ganhou corpo a cada minuto que se passava. Uma noite, para surpresa de uma das empregadas do solar, com apenas 6 anos de idade, Frycek tocou ao piano o que a mãe havia estudado momentos antes, sem erros e criando variações sobre o tema: esse foi o estopim para que os pais procurassem o professor Zywny para ajudar o jovem talento. As aulas duraram até o dia em que Zywny deu-se conta de que Frycek não mais o necessitava após ouvir o que o jovem Chopin havia composto: uma Polonaise a ele dedicada.

Quando criança, aqui e lá, Chopin tocava para a nobreza. O salto para o conhecimento do público veio aos 15 anos, quando publicou o seu Rondó em dó menor, Opus 1. Aos 16 anos, já no Conservatório de Varsóvia, o renomado professor Elsner o fez entender todo o âmago da arte da música, especialmente na área da composição, incluindo a composição orquestral. O deleite, no entanto, ocorria nas fabulosas e geniais harmonias quando se tratava somente do piano. “O mestre que não sabe deixar-se ultrapassar pelo aluno é um mau mestre”, afirmava Elsner. Vê-se que o professor cumpriu à letra o que pregava.

Após transferir-se para a França seu talento e prestígio ganharam o mundo. Enterrado em Paris, seu coração foi trasladado para Varsóvia, encontrando-se dentro de uma das colunas da Igreja da Santa Cruz, no centro histórico de Varsóvia, a única que não foi destruída na Segunda Gerra Mundial pelo nazismo. O motivo? Nela se encontrava o coração de Chopin. Um coração onde o divino e o humano se encontraram em forma de música.

Hoje, especialmente, desejo que a música deste grande mestre toque também seu coração!

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