Grieg e Liszt: um desafio recompensador

Alvaro Siviero

20 de novembro de 2012 | 18h35

Um significativo público acompanhou a execução dos Concertos n.1 e n.2 de Liszt que realizei, recentemente, em cidades de SP e PR. Embora alguns afirmem ser loucura, sempre me cativou o conceito de integrais. O mesmo já havia ocorrido com a integral das Polonaises de Chopin – a título de exemplo – que realizei no Brasil e Argentina. O conceito de “integral” não permite escolha ao intérprete, não há possibilidade de omissão das partes de maior dificuldade técnica, além do que a identificação do intérprete com a proposta do autor deve ser igualmente “integral”.

No último dia 04 de novembro, encerrando este desafio, estava prevista a última apresentação dos dois concertos de Liszt, no Guairão, em Curitiba. Enquanto psicologicamente me preparava para este momento, completamente encardido e absorvido por esses dois monumentos, um telefonema da Orquestra Sinfônica Brasileira, quatro dias antes desta apresentação, me convidava a substituir a pianista americana Simone Dinnerstein que, por motivos diversos, acabou não podendo vir ao Brasil. O repertório? O Concerto de Grieg, além de um recital que ocuparia toda a primeira parte do programa. O pedido – mais do que um convite – foi feito enquanto eu dirigia o carro em meio a um trânsito descomunal em plena Av. Brigadeiro Faria Lima. Entre buzinas, o volume do som do carro (eu escutava naquele momento os Concertos de Liszt na interpretação de Krystian Zimermann) e uma retumbante freada de um ônibus próximo a meu carro, acabei dizendo que sim. Confesso que, ao desligar o telefone (onde o repertório do recital da primeira parte também foi definido, com direito a Beethoven, Chopin, Strauss-Grunfeld, entre outros) pensei no que tinha acabado de fazer. Para os que não sabem, tenho um sério problema de memória: quando sob pressão, ela simplesmente não funciona, e eu teria que memorizar as dezenas de páginas em um dia. Era uma quarta-feira. Os ensaios com a OSB iniciariam na sexta-feira pela manhã, no Rio de Janeiro. Tive que rapidamente cancelar minhas passagens aéreas para Curitiba. Eu somente tinha a certeza de que não poderia dar outra resposta ao colocar-me, em consciência, no lugar de quem me fazia o pedido.

No entanto, o maior problema não era memorizar, mas envolver-me afetivamente com a obra. Sem envolvimento emocional não existe verdadeira interpretação. E envolvimento, quando verdadeiro, pede tempo, pelo menos um pouco mais do que o único dia que eu teria para provocá-lo. O incrível é que quanto maior era o empenho de memorização, mais eu misturava todas as notas do próprio concerto. Enquanto isso minha cabeça dizia: Liszt, Liszt, Liszt…

Cheguei ao Rio de Janeiro quinta-feira, às 22:30h, e dirigi-me ao hotel, consciente de que descansar era fundamental para tentar driblar confusões de memória. Coloquei o iPhone com o Concerto de Grieg debaixo de meu travesseiro e decidi dormir ouvindo a obra, dialogando também com o inconsciente durante as horas de sono. Pouco antes de deitar-me, querendo afastar um sentimento de mal estar, decidi fazer a apresentação com a partitura. Pronto, não havia mais preocupações: a necessidade de memorizar estava descartada! Era a aplicação prática do velho truque de auto-enganação. Dormi tranquilo. Acordei, acreditem ou não, com o concerto memorizado. Falo sério. Tudo meio estranho, mas real. A obra estava abraçada completamente. Mais surpreendente foi verificar que Liszt, a quem já pedi desculpas, caiu em total esquecimento durante aqueles dias cariocas.

Após o primeiro (e único) ensaio da sexta-feira, houve no dia seguinte uma breve passagem de som, já no Teatro Municipal do RJ momentos antes do concerto. De meu camarim, verifiquei a enorme multidão que entrava ininterruptamente no teatro. O calor humano e a receptividade deste grande público (que praticamente atingia o teto do TMRJ), a produção impecável, a cordialidade exemplar por parte da direção da OSB e, dando um empurrão, a inspiração que também decidiu encontrar todos nós no mesmo local e horário da apresentação, transformaram aquele momento em grande êxito. Hoje, provado pela experiência, a dúvida virou certeza: ousar é acertar.

Para aqueles que ainda não conhecem o Concerto de Grieg, fica o video abaixo, com duas dicas:

1. O Concerto de Grieg é o único concerto escrito pelo compositor norueguês, quando tinha apenas 24 anos de idade (1868). A gênese da obra recebeu forte influência do Concerto para piano de Schumann, escrito na mesma na tonalidade e com entrada triunfante similar. Diversas gravações trazem estes dois concertos no mesmo álbum.  Grieg o compôs na Dinamarca e sua estréia ocorreu em Copenhagen, em 1869. Infelizmente, devido a compromissos profissionais já assumidos com a Orquestra de Oslo, o autor não esteve presente na première. Este concerto é um dos mais conhecidos e populares do repertório sinfônico.

2. A obra revela profundo interesse de Grieg pela música folclórica de seu país: o último movimento (18:30 do vídeo)  traz sólida alusão ao halling (dança folclórica norueguesa), bem como à rabeca norueguesa.

 

 

Após a tempestade…

… vem a bonanza… 

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