Fígaro e uma barbearia: a confusão está armada

Fígaro e uma barbearia: a confusão está armada

Alvaro Siviero

07 de fevereiro de 2014 | 16h26

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O personagem principal da ópera “Barbeiro de Sevilha” é Fígaro: um barbeiro, que mora em Sevilha (óbvio!). E ambiente de barbearia é aquele mesmo, conhecido de todos: fala-se de tudo e um pouco mais, principalmente da vida dos outros. Em cabeleireiros o papo não é muito diferente.

Fígaro encarna o personagem que  tem o dom de sempre se envolver em planos e intrigas. Fofoca mesmo. Na estória em questão, a confusão se passa com a jovem donzela Rosina e dois pretendentes: o Conde de Almaviva, um jovem rico e elegante que abre a estória fazendo uma bela serenata para cortejar a “filha do médico” e  Doutor Bartolo, o tal médico pai de Rosina, que de pai não tem nada pois Rosina é tutelada (ela não sabe!). Ao tomar conhecimento que Doutor Bartolo já está querendo elaborar o contrato de casamento, Fígaro avisa Rosina das intenções do médico ao mesmo tempo que lhe informa o quão apaixonado está seu primo Lindoro pela donzela. Detalhe:  Lindoro não passa de um pseudônimo usado pelo Conde Almaviva para aproximar-se da amada. A estória vira um rolo só, onde gargalhadas, apreensão e a torcida por um final feliz se transformam em uma única coisa. A trama, do escritor francês Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais (1732-1799), transformou-se em uma das mais famosas peças operísticas de todos os tempos.

O barbeiro Fígaro é, além disso, comerciante, farmacêutico e dentista. Para o bom entendedor, é um daqueles que faz qualquer negócio lucrativo, desde arranjar encontros amorosos até espalhar maledicências na alta sociedade. Fígaro fez tanto sucesso que Beaumarchais deu sequência ao personagem em outras aventuras como “As Bodas de Fígaro”, “A viuvez de Fígaro”, “O envenenamento de Fígaro”, entre outros. Músicos de todos os tempos sempre tiveram atentos à obra de Beaumarchais, dispostos a fazer de suas peças verdadeiras comédias musicais, entre eles Mozart em sua célebre As Bodas de Fígaro. A própria obra “O Barbeiro de Sevilha” recebeu diversas versões, entre elas a do italiano Paisiello, a do alemão Peter Schulz, a de Niccolò Isouard, de Francesco Molarchi, entre outras, mas que foram ofuscadas com a versão, diríamos definitiva, do compositor italiano Gioachino Rossini (1792-1868). Na trama – e é sobre esse trecho que me detenho agora – há o conhecido momento em que Fígaro externa seus sentimentos: sente-se o faz-tudo da cidade (factotum). E começa a cacarejar a ladainha, pouco modesta: “Abram caminho. Sou o factotum (faz-tudo) da cidade. Ah, bravo Fígaro! Bravo, bravíssimo! Pronto para fazer tudo. Fígaro! Fígaro! Fígaro!. É Fígaro cá, Fígaro lá, Fígaro para cima, Fígaro para baixo”.

Faz pouco tempo – a literatura pianística é imensa – caiu sobre minhas mãos uma versão para piano de Ginzburg desta ária, interpretada magistralmente pelo pianista russo Denis Matsuev, com quem já tive o prazer de extensamente conversar. Vale conferir. E fica minha sugestão para o próximo carnaval, para os que ainda não tiveram o prazer de conhecer/assistir a trama. Eu, entre uma caipirinha e outra, estarei debruçado sobre o piano, com Ginzburg….

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