Festival de Inverno de Campos do Jordão – Um novo impasse

Alvaro Siviero

08 de setembro de 2011 | 16h19


Paulo Zuben, em seu escritório na sede da EMESP

Acredito que qualquer sucesso, pessoal ou corporativo, apóia-se em duas importantes pilastras: paciência e foco. O impaciente, como diz o ditado, come frio. E o desfocado, por não saber exatamente o que busca, não chega muito longe, se é que chega a algo. E é essa segunda pilastra que parece estar tombando dentro do mais importante Festival de Música da América Latina, organizado e realizado pelo Governo do Estado de São Paulo em conjunto com a OS Santa Marcelina Cultura. Conversei com Paulo Zuben, diretor artístico-pedagógico do Festival, que também acumulava a direção executiva nos últimos anos: a mudança de perfil do Festival desejada pela Secretaria de Cultura pode estar colocando fim à gestão da OS Santa Marcelina Cultura.

 

Como surgiram essas incompatibilidades?

A missão da OS Santa Marcelina Cultura é eminentemente pedagógica: queremos dar formação integral à geração dos novos músicos do amanhã, envolvendo não somente o aspecto técnico-musical como também o aspecto humano, da construção de suas personalidades. Esse é o nosso foco. Obviamente, como em um mosaico, há também excelentes apresentações artísticas no evento, onde a fina flor da sociedade paulistana marca forte presença. Você, Álvaro, atuou artisticamente lá em Campos e teve a oportunidade de ver tudo isso. Mas o nosso foco não é o glamour. Nossa intenção não é transformar esse momento em plataforma de visibilidade. O bolsista não pode ser cenário para outros interesses. Durante as edições do festival já houve até quem usasse as apresentações para gravar e lançar discografia, em exercício de autopromoção. Quando o maestro Eleazar de Carvalho idealizou este festival, a intenção era somente pedagógica. Aproveito para ressaltar que o principal patrocinador do evento quer como foco das atividades a preocupação com o pedagógico, pois essa é a essência deste festival.

É possível exemplificar de modo mais palpável o que significa essa preocupação pedagógica?

Na Orquestra do Festival, por exemplo, os bolsistas atuaram como chefes de naipes, e não como meros coadjuvantes. Para conseguir isso, estamos intensificando fortemente a prática da música de câmara durante os dias do festival, fazendo com que professores renomados dividam o palco com alunos, todos em mesmo nível de importância.  A prática da música de câmara evidencia tanto as potencialidades como os pontos fracos do músico, tudo fica muito claro, transparente. Já no repertório sinfônico, para grandes orquestras, corre-se o risco de o aluno se tornar mero número dentro daquela massa enorme de pessoas o que, pedagogicamente, não é interessante.

Realizamos, ao final do festival, uma pequena turnê por diversas cidades do Estado, o que acabou possibilitando aos bolsistas ganhar experiência de palco e de conjunto. A programação das aulas e masterclasses contribuíram para que houvesse muito intercâmbio de informação. Facilitamos diversos contatos internacionais para que os alunos do festival pudessem ampliar suas possibilidades de estudar no exterior. Nestes dois últimos anos, nos concertos de Campos replicados em São Paulo, os ingressos gratuitos oferecidos para alunos de baixa renda, que estudam em programas de música nas periferias da cidade,  permitiram que eles dividissem o mesmo espaço com o público de assinantes costumeiro das apresentações mais caras de temporada. Para se conhecer a música clássica, todos devem ter acesso e a mesma oportunidade.

Em 2011 os alunos realizaram recitais em asilos, hospitais e em pequenas comunidades, visando esse crescimento humano do artista e mostrando o quão importante é sairmos de nós mesmos e nos doarmos um pouco mais aos outros. É a prevenção contra problemas de gerenciamento de egos futuros.

Existe a percepção de que a população da cidade de Campos do Jordão tem pouco acesso, ou quase nenhum, aos eventos do festival. Se a música clássica deve ter a mesma importância, como você afirmou, como você explicaria isso?

Entendo que há uma dívida de gratidão do festival para com a cidade. Todos sabem que Campos do Jordão, durante o mês de julho, não guarda nenhuma relação com a realidade desta cidade durante o resto do ano. Os habitantes de lá afirmavam que a única contribuição que a cidade recebia ao final do festival era o lixo, deixado por todos os que ali haviam passado. Neste ano, realizamos mais da metade dos concertos gratuitos nas Igrejas e Praça, além de também apresentá-los no Teatro Cláudio Santoro, justamente para inserir e fazer a cidade participar do festival. Foi grande a nossa alegria quando descobrimos que, pela primeira vez, um dos bolsistas era de lá. São 42 anos de parceria com a cidade. Já estava na hora…

Mas nossa ligação com a comunidade de Campos do Jordão não se resumiu a isso, procuramos construir uma relação muito mais profunda. Fizemos reuniões com líderes comunitários e elaboramos juntos um amplo programa que chamamos de Festival na Comunidade. Foram oferecidos cursos de iniciação musical a centenas de crianças, formamos professores da rede pública local, e mobilizamos dezenas de artistas que se apresentam no Festival para dar aulas aos músicos da cidade. A própria equipe de produção ofereceu voluntariamente um curso de formação em projetos culturais para dezenas de agentes locais. Acho que plantamos uma semente e hoje muita gente na cidade acredita que a relação com o Festival vai ser diferente.


Você mencionou a turnê ocorrida no Festival. Mas os músicos todos sabem que isso foi um drible para contornar o corte de verbas para a edição deste ano. Correto?

A itinerância teve uma justificativa pedagógica muito importante: dar aos bolsistas a oportunidade de vivenciarem a experiência de uma turnê como numa orquestra profissional. Mas, realmente, a dificuldade financeira nos exigiu uma solução criativa para driblá-la. Passamos por um momento de dificuldade no início do ano.   Verificamos que, de fato, sem todos os professores, funcionários, toda a hospedagem e estrutura na cidade de Campos do Jordão, o custo com a turnê seria menor e, portanto, viável. Mas, de fato, o festival diminuiu de tamanho, como foi amplamente veiculado. Principalmente porque as pessoas comparam com a edição de 2010, que em minha opinião e de muitos foi uma das melhores de toda a história do Festival.

O corte de verbas da edição de 2011 está relacionado a um desgaste de relação?

Este aspecto econômico, embora muito importante, não é o essencial.


Fala-se que a OSESP será a nova orquestra residente do festival…

Pois é… parece que sim.


O que dizer sobre o futuro?

A decisão não cabe a nós. Continuaremos trabalhando com afinco no festival se pudermos manter o foco no que é a missão da Santa Marcelina Cultura. Não estou aqui para julgar o que é o certo ou o errado. As condições atuais são bastante adversas e os desafios contínuos. Seguiremos desenvolvendo o nosso trabalho, investindo na cultura musical de tantos talentos que serão os músicos do amanhã. O futuro nos mostrará onde estaremos, mas certamente será formando pessoas.

 

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