Em setembro, André Rieu retorna ao Brasil para mais 12 shows

Alvaro Siviero

10 Julho 2012 | 13h08

Os 3 shows de Andre Rieu, transformados em 24, serão 36. Sim, o músico holandês retorna ao Brasil para mais 12 shows a partir do dia 10 de setembro. “Como é que pode?”, pensará alguém, enquanto outros já reservam a data na agenda. A indignação dos primeiros, um mix de rancor e desprezo ao “rei da valsa”, choca com a euforia do segundo grupo que, diariamente lotando o Ginásio do Ibirapuera, não está nem aí com o blá-blá-blá dos azedados, intensificado após a aparição de Rieu com o “Ai se eu te pego”. Preferi guardar silêncio, mantendo-me distante dos fatos e reações, em espera de calmaria das opiniões mais apaixonadas. Além disso, eu precisava olhar o fenômeno de perto. Li quase tudo o que foi escrito e, em final de semana prolongado onde milhares de pessoas migraram para fora de SP, uni-me a outros milhares com outro destino: o Ginásio do Ibirapuera.

O show – com direito a chuva de bexigas e até neve artificial – interage e provoca. Em poucos minutos, em ressonância com o palco, a multidão aplaude, dança, fotografa como ator coadjuvante do evento. O próprio local – um ginásio – revela qual é a proposta que, longe de ser um concerto, não é nem melhor ou pior que este. É diferente. Desde My Way ou Hava Nagila até pot-pourri adaptado de Mozart, passando por diversas valsas de Strauss, a proposta musical é puro entretenimento. É lazer bem sucedido. E a prova disso é o rio de gente que diariamente aflui ao espetáculo. Viva a liberdade. Mesmo que em outra vertente, igualmente, não há como negar o enorme sucesso e apelo que a música sertaneja tem exercido em milhares de pessoas. Pessoalmente não me interesso nada por ela, mas contra fatos não há argumentos.

Há envolvido, sem dúvida, um problema de valor cultural. Até mesmo dentro do âmbito da música de concerto as opiniões divergem. A matéria de João Luiz Sampaio (leia aqui), publicada quando da chegada da trupe ao Brasil, é a ponta do iceberg desta divergência também comprovada em diversas conversas que travei com a classe erudita. Há outro problema, de natureza mais grave: o de nível cultural. O batuque “Ai se eu te pego”, que é um dos símbolos atuais da música brasileira, não responsabiliza o músico holandês sobre nossa pobreza cultural. Rieu nem pretende consertar esse problema, que não é de sua responsabilidade. Acredito que ele nem tenha como finalidade transformar seu ouvinte em ouvinte “legítimo” de Tchaikovsky, Ravel ou quem quer que seja. Ele quer divertir as pessoas, deixá-las felizes e, falando claro, ser bem remunerado. E quem não quer? E quem me garante que ele não possa estar causando algum tipo de interesse maior pela música de concerto? Como testemunho, confesso que foi ouvindo um LP do maestro argentino Waldo de los Rios (uma espécie de Rieu dos anos 70) que, entre outros, senti-me cativado ao mundo da música de concerto. E comecei, então, a ouvir os originais. Que bom seria se uma parcela, mesmo que pequena, fizesse o mesmo, pois no âmbito da música de concerto os originais são sempre mais interessantes que adaptações. Mas o desejo de crescer culturalmente é uma decisão pessoal. Que bom seria se preguicites diante da TV se transformassem em leitura de bons livros. Que diferença se perdas de tempo na internet dessem passagem a um sério empenho de qualificação profissional. Que maravilha se batuques abrissem espaço à música de enriquecimento. Cuidado: o problema não está no batuque. O problema está em somente se ouvir batuque ou dar-lhe a importância que não merece. É aí que mora o perigo. E esse desafio é pessoal. Acredito que os problemas de uma sociedade não passam de uma projeção ampliada dos problemas pessoais que cada um, diariamente, trava dentro de si. Se você, leitor, e eu nos decidirmos a deixarmos de ser pilantras, tenha essa certeza, serão dois pilantras a menos no mundo. Quem sabe, com decisões de melhoria cultural, algum dia, até mesmo a mulher brasileira deixe de ser vista, como infelizmente ocorre hoje, como a mulata semi-nua que sabe rebolar. Foi assim que a projetamos no ano do Brasil na França.

O Ginásio do Ibirapuera

 

Surpreendeu-me também a confusão gerada pela mídia, e faço aqui um mea culpa, onde jornalistas da área cultural classificam o show como concerto. Manchetes do estilo – “Rieu mostra em SP por que é popstar da música erudita”, “André Rieu, um novo Beethoven?” (confesso que nesta segunda cheguei a gargalhar), entre outras – causam um dano real. Verifiquei isso em diversas publicações e revistas a que tive acesso. Isso confunde. E depois, quando a grande massa desinformada diz que vai a um “concerto” de André Rieu, acaba sendo criticada pela mesma imprensa. Agora sou eu quem pergunta: Como é que pode? No Ibirapuera, a sensível interpretação da canção Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, emocionou muita gente. Eu me incluo. Mas não se pode confundir xícara com chácara.

O efeito dominó da confusão é tal que há quem, inclusive, queira questionar a licitude da atividade desenvolvida por Rieu. Isso é complicado. Outros, mais ousados em suas estripulias mentais, comparam o músico holandês ao pianista chinês Lang-Lang  colocando tudo no mesmo saco, afinal de contas os dois estariam usurpando a cultura como forma de autopromoção. Isso é mais complicado. E a saraivada é interminável: os ingressos são caros demais (você já os comparou aos bilhetes de uma boa partida de futebol?), o repertório é batido, a vestimenta da orquestra é despropositada, etc. Enfim, a lista é interminável. E as críticas também, afinal de contas ela faz parte da nossa natureza humana, onde falar mal e julgar traz ibope e “prestígio” (será?). Mas Rieu parece não estar nem um pouco preocupado com isso. Como profissional empreendedor e empresário experiente, o seu sucesso fala por si. E não há como negá-lo. Enquanto meia dúzia de pessoas dedica-se a explicar os motivos do desagrado provocado por sua música, outros milhares o aplaudem. Não estou defendendo Rieu e não assistiria a seus shows como única forma de lazer ou descanso. Aprendi a descansar nos originais das obras, sempre mais interessantes e enriquecedores. Além disso, mais importante que a crítica é a autocrítica. E neste espaço democrático lembro-me da figura de Pilatos que, antes de seu ato de covardia, teve um rompante de honestidade ao questionar: “O que é a verdade?”

Abaixo uma homenagem ao maestro Waldo de los Rios, falecido em 1977, e o registro efusivo do exigente público londrino que, abarrotando o célebre Royal Albert Hall, recebeu Rieu em entusiasmada execução do Hava Nagila. Bom lazer!

 

 

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