Elina Garanca faz sua estreia no Brasil pelo Mozarteum Brasileiro

Elina Garanca faz sua estreia no Brasil pelo Mozarteum Brasileiro

Alvaro Siviero

24 de junho de 2019 | 11h16

Victor Hugo certa vez afirmou que a Música possui a capacidade de expressar o que as palavras não são capazes e o que não pode deixar de ser dito. A mais pura verdade. E parafraseando o literato francês, tomo a liberdade de pensar que as lágrimas – de dor, de desespero ou até mesmo de alegria – igualmente expressam o que uma emoção per se não é capaz de exprimir, de albergar. Tamanha pode ser a força de uma emoção que o corpo se vê obrigado a também externar o que ocorre dentro da alma. Foi este sentimento de comoção que tomou conta de um privilegiado público que tomou conta da Sala São Paulo na noite do último sábado para a primeira das apresentações que marcaram a estreia da mezzo-soprano Elina Garanca em terras brasileiras. Durante a apresentação percebi que não foram poucos os que se renderam às lágrimas diante da magnitude e beleza vocal da artista letã após a versão de Mon coeur s’ouvre à ta voix, da ópera Sansão e Dalila (vídeo abaixo). A filosofia estética afirma que a Beleza (o Pulchrum) não se demonstra, se mostra. E foi isso o que aconteceu: a Beleza decidiu comprar seu ingresso e marcar presença naquela noite. Foi um susto.

As inegáveis qualidades artísticas desta exímia mezzo-soprano – seu timbre vocal, carisma, versatilidade, presença cênica, entre tantos outros atributos – seriam suficientes para escrever parágrafos e mais parágrafos analisados em formato de resenha crítica, desde o programa escolhido (Mascagni, Bizet, Cilea, Saint-Saens) a análises técnicas da performance, entre tantas outras considerações acadêmicas. Mas se assim o fizesse, este texto se desvirtuaria da consideração que realmente tocou a muito dos presentes, onde um elemento humano inesperado chamou a atenção de vários ocupando, no ranking dos comentários que presenciei após o concerto, um dos trending topics da noite: a simplicidade, a ausência de pose ou histrionismos por parte da artista. Era notória a veracidade artística e cênica de Elina Garanca. Explico-me.

Conta a tradição que, na Roma Antiga, escultores de segunda categoria buscavam disfarçar e encobrir a imperfeição de suas obras (principalmente nas esculturas em mármore) com cera. As obras de valor eram as sine cera (sem cera, sinceras). A sinceridade artística de Elina Garanca – seu desprendimento dos aplausos, sua referência contínua ao maestro e orquestra, seu agradecimento humilde ao público – acabaram por agregar um valor inesperado àquele momento e que pegou a muitos de surpresa. Elina Garanca, mesmo sendo uma artista celebrada nos quatro cantos do mundo, despojou-se de sua fama, honra e de sua própria pessoa em serviço do fazer musical. Não se fez de prima donna, talvez porque não o seja. Via-se no palco a lucidez de uma pessoa ciente de que um quadro é muito mais importante que o pincel que o fabricou. Não havia ali complexos de diva. Elina Garanca, no palco, com seu gestual, postura e olhar, exalava uma sinceridade quase inocente, angelical, onde não havia espaço para afetações, poses, nariz empinado, comparações, competições, invejas e tantos outros sentimentos desajustados mais próprios de quem confunde o trabalho de um artista com exibicionismo. E isso emocionou. Os presentes tínhamos a impressão de estar, realmente, diante de alguém a serviço da música, embora sejam muitos os que assim se definam.

A Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, conduzida pelo competente maestro Constantine Orbelian, como seu próprio nome a define, é formada por estudantes, muitos deles ainda em fase de experimentação. e buscou sua excelência, mesmo ao meio de pequenas imprecisões que o tempo e a experiência certamente ajustarão. Via-se jovens comprometidos. A sonoridade escolhida – que prezou a suavidade, discrição e comedimento sonoro – poderia, talvez, ter ganhado contornos de ataques sonoros mais rítmicos e contundentes, principalmente na segunda parte do programa que, homenageando a língua hispânica, fez clara referência ao país que Elina escolheu para viver: a Espanha.

O público – ao final da execução das árias Habanera e Chanson Bohème da ópera Carmen, que marcavam o final do espetáculo – pedia com aplausos insistentes para que a mezzo-soprano não fosse embora. Havia sido criado um vínculo, não somente artístico mas também humano. E foi aí, diante dos aplausos insistentes, que outras pérolas foram entregues aos presentes: Granada, No puede ser, El dia em que me quieras… Elina, em atitude de quem se esqueceu estar em um palco diante de mais de mil pessoas, em uma das principais salas de concerto do Brasil, conversou com o público, ajustou o vestido que a atrapalhava, distribuiu flores de seu bouquet a músicos da orquestra e provocou risos divertidos na plateia com suas estórias. Foi neste momento que lembrei-me daquele amigo, homem poderoso, que certa vez confidenciou-me qual era sua meta de vida: ser normal.

Hoje, às 21h, para os que ainda não o puderam, fica a opção da sua apresentação. Vivamente recomendo.

A programação do Mozarteum Brasileiro, responsável pela vinda da mezzo-soprano ao Brasil, continua no segundo semestre com apresentações da Orchestre Philharmonique du Luxembourg e da violinista holandesa Janine Jansen nos dias 20 e 21 de setembro. Em seguida, apresentações do grupo nova-iorquino Dance Theatre of Harlem, em 11 e 12 de outubro, no Teatro Alfa. Para finalizar, em novembro, a RTV Slovenia Symphony Orchestra realizará duas apresentações gratuitas no Ibirapuera, no dia 10, e mais dois concertos nos dias 12 e 13, com participação do solista letão Mischa Maisky, um dos maiores violoncelistas da atualidade. Os ingressos para as atrações estão à venda pelo site do Mozarteum Brasileiro.

 

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