Eleições e democracia no mestre Chopin

Eleições e democracia no mestre Chopin

Alvaro Siviero

27 de outubro de 2014 | 16h04

Meu último recital, faz poucos dias, ocorreu em Varsóvia. Nesta cidade, durante muitos anos, viveu o compositor Frédéric François Chopin (Fryderyk Franciszek Szopen, em polaco) antes de partir definitivamente para Paris, sem nunca mais poder voltar. Como não poderia deixar de ser, visitei diversos locais referentes à vida deste gênio do piano. Estive em Zelazowa-Wola, na região da Mazóvia, onde se encontra sua casa natal. O amor do “poeta do piano” por sua Polônia pode ser exemplo a todos nós após a acirrada campanha eleitoral que vivenciamos nos últimos dias. Tendo vivido 39 anos – 20 na Polônia e 19 na França – carregou consigo, durante toda a vida, muitas vezes guardada no próprio bolso, um punhado de terra polonesa que, como ele pediu, deveria ser jogada sobre seu caixão durante seu funeral. Pediu também para que, após sua morte, seu coração retornasse à Polônia. E assim foi feito: seu corpo repousa no cemitério parisiense de Père Lachese, mas o coração encontra-se na igreja da Santa Cruz, em Varsóvia.

O patriotismo de Chopin – plasmado em suas Polonaises e Mazurkas, entre tantas outras obras – é considerado, por diversos especialistas, como coluna de sua produção musical.  Seu patriotismo não era de palavra, mas de obras. Sua frágil saúde, que o impediu de lutar nos campos de batalha contra a invasão russa, fê-lo transformar seu piano, como ele mesmo afirmava, em seu campo de batalha. Ao final da vida, tão curta, excursionou por diversas partes da Europa levando a genética musical polonesa por onde quer que passasse. Mesmo carregado de gratidão pela França que o acolheu, nunca se esqueceu do amor por sua nação natal. Não era um homem dividido: era um homem de coração universal.

Acredito que esta deveria ser a postura de milhares de brasileiros que, erroneamente, movidos por paixão política mal entendida e por um exercício da cidadania atropelado e imaturo, manifestaram agressivamente (por ação ou reação, tanto faz), sua discordância a quem lhes contrariasse, desqualificando-as ou rotulando-as com ironias recheadas de deselegância. Não se discutiam ideias: manifestavam-se preconceitos. E quem se desqualificava? O próprio agressor.

A obra musical de Chopin – para quem nunca a ouviu – não tem nenhum caráter impositivo. Chopin não impõe, propõe. Essa é uma lição musical básica na correta interpretação deste autor. E convence. Quando há conteúdo torna-se desnecessária a força bruta, os gritos, a destemperança. O refinamento, a educação e a postura gentleman que, por unanimidade, as biografias atribuem à pessoa de Chopin é, sem dúvida, reflexo externo do porte interno. Sua música convence por que tem conteúdo.  Um exercício da verdade.  E a verdade sempre se impõe.

Não, o Brasil não está dividido. O Brasil está fortalecido pelo exercício democrático, onde a força da verdade – o certo é o certo, o errado é o errado – não se submeterá politicamente à ditadura do relativismo buscada por algumas bancadas ou partidos de plantão. Honestidade pessoal, exercício da cidadania e direito à liberdade são pilares da verdadeira democracia. Todos, juntos, devemos clamar por um país melhor. E assim o faremos. O Brasil merece.

Para os adeptos do grito e da truculência, fica a sugestão deste Noturno, de Chopin.

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