Carreira Artística – A Língua

Carreira Artística – A Língua

Alvaro Siviero

03 de dezembro de 2011 | 23h19

Fofoca

“Mostre a língua! Tire a língua!”. Era assim – e ainda o é – que os médicos ordenavam, após informarem-se dos sintomas e possíveis causas do mal-estar de seus pacientes. E daquela língua esbranquiçada ou sulcada, às vezes avermelhada, surge o diagnóstico acertado.

Quando o assunto é relacionamento humano, mostrar a língua é deixar ver o coração. As palavras – com suas mil tonalidades, cargas, intenções e acentos – são um retrato falado do que trazemos dentro. Quem não se lembra do sentimento de gratidão que nasce quando alguém nos estimula com palavras de otimismo e conforto após um erro cometido? Quem não se sente cativado diante de um conselho desinteressado e verdadeiro? É a língua a serviço do bem. A maledicência, em seu desserviço malicioso de jogar luz negativa sobre os outros, evidencia não somente o que trazemos dentro, mas o que somos. Com uma estratégia que cheira a fruto barato da inveja, a maledicência tenta diminuir o brilho alheio que incomoda. Incômodo que não é provocado pelo brilho, mas pela incapacidade de produzi-lo. Por não conseguir subir, abaixa-se o outro. Não há nada divertido: a origem é a baixeza humana.

As motivações podem ser inúmeras: desejo de hegemonia profissional, pequenas vinganças, suscetibilidades e até falta do que fazer. Outros entram nesta enrascada nem tanto por maldade, mas por baixa estatura intelectual. Explico-me. Como não há assunto positivo, construtivo e enriquecedor, fala-se de novela, da celebridade do dia, critica-se algo que nos desagradou e, sem percebermos, nos encontramos a um passo do clima de fofoca e tititi. E é aí que mora o perigo. Cabeça vazia, diz o ditado popular, oficinal do diabo. Desnecessário dizer que os relacionamentos amistáveis originados aí não se sustentam.

Um importante diretor de uma grande empresa, recém-contratado, disse-me certa vez que não aceitou receber nenhuma informação prévia sobre seus funcionários: suas opiniões deveriam basear-se em suas próprias observações. Seu sucesso como gestor apoiava-se em um raciocínio evidente, porém esquecido: “se esta pessoa vem me falar mal de outros, quem me garante que algum dia não fará o mesmo sobre a minha pessoa a terceiros?”, comentou-me. E complementava: “é evidente que, se falamos mal de alguém, é porque antes pensamos mal. E dentro deste quadro, não é de se estranhar que à maledicência e à crítica, acrescente-se a mentira”. Fiquei em silêncio, pensativo. “Alvaro, tente ficar em silêncio, como agora, quando vierem, por algum motivo, falar de alguém para você. O seu silêncio fará a conversa desaparecer”. Já fiz o teste. Funcionou.

A música é igualmente feita de silêncios. Em realidade, silêncio é música. Existem até – alguns talvez não o saibam – diversos tipos de pausas previstos na literatura musical, para as mais variadas opções. E quando chego em alguma pausa, daquelas que acontecem após avalanche de notas, sempre me lembro que assim deveria funcionar a vida. Afinal de contas, música é vida.

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