Egocentrismo e Carreira Artística I – Realidade e Imaginação

Alvaro Siviero

11 de novembro de 2011 | 19h19

Tive o prazer de conversar com a pianista venezuelana Gabriela Montero. Simpática, ela  passou pelo Brasil deixando o seu recado. Suas performances foram antecedidas por depoimentos francos e diretos, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em que, entre outras coisas, lamenta o foco egocêntrico colocado por muitos na carreira, “característica de 10 entre 10 pianistas da cena atual”. A declaração é forte. Deixou-me pensativo. Fui estudar um pouco o assunto, afinal de contas sou pianista…
Em diversos livros e abordagens que pesquisei verifiquei que o egocentrado pode ser rapidamente detectado por algumas características que lhe são muito próprias. Hoje, discorrerei sobre duas delas.

A primeira delas refere-se ao alto conceito que faz de si mesmo. É um fato que, sem humildade pessoal é impossível crescer, simplesmente porque o orgulho impede enxergar os erros de conduta. Não se supera aquilo que não se reconhece e se aceita. Como o egocentrado utiliza o recurso da justificativa diante dos próprios erros, acaba não se enxergando. Ele corrige os outros de modo duro, severo, rigoroso e humilhante (alegando ser exigência da posição que ocupa) e se desculpa dos seus próprios erros. Outras vezes é dotado de uma “hipersensibilidade” em que tudo vê agravo, ofensa, injustiça e, ao mesmo tempo, como cara e coroa da mesma moeda, julga os outros e sente-se dono do bem e do mal, do certo e do errado. O egocentrado também experimenta “afundamentos” e “depressões” diante de críticas desfavoráveis ao seu trabalho artístico, mas, paralelamente, é o primeiro a criticar negativamente o trabalho dos outros. O egocentrado defende suas posições até o último reduto, gerando uma teimosia própria de quem não sabe enxergar outras posições que não a sua, mesmo que os argumentos contrários sejam convincentes. O artigo de João Marcos Coelho, no C2/Erudito, do último dia 05 de novembro, e o blog de João Luiz Sampaio jogam luz sobre esse desafio do comportamento humano ao divulgarem a recente quebra de parceria entre a pianista francesa Helène Grimaud e o maestro Claudio Abbado. O motivo? Uma divergência musical. Tudo muito triste. Conhecemos que a divergência é própria do ser humano, mas o diálogo também o é. Não falo aqui sobre as pessoas. Falo sobre os fatos.

A moda do salto alto deve-se a Luís XV para disfarçar a sua pequena estatura. A moda do cabelo curto para as mulheres – à la garçonne – nasceu quando Maria Antonieta começou a perder o cabelo. A gola alta foi introduzida no Renascimento apenas porque Ana Bolena tinha um horrível defeito no pescoço. São tentativas de maquiar problemas físicos. No âmbito ético, a tentativa de maquiar problemas morais é perigosa por contrariar princípios elementares do desenvolvimento da personalidade. Quem sai ganhando? A nossa falsa imagem.

Alguns psicólogos afirmam que a origem de alguns casos de tratamento de dupla personalidade reside exatamente aqui: por um lado, a personalidade que se desenvolve na esfera imaginária inventada pelo orgulho, cheia de triunfos, qualidades e sucessos empolgantes; por outro lado, a personalidade que pertence ao mundo real, de acontecimentos prosaicos, de defeitos e falhas, de fatos pouco interessantes e apagados. Diante do impulso essencial do homem para a unidade, a vítima tenta provar que sua personalidade fingida coincide com a personalidade real; ou, melhor, que sua personalidade real é a fingida. “A tua principal função é a de te enganares a ti próprio e parece que o consegues porque a tua máscara é das mais enigmáticas”, afirma Kierkegaard.

A segunda delas refere-se ao critério do para mim, que preside suas tomadas de decisão: este acontecimento, esta circunstância, esta pessoa, que utilidade podem ter para mim? Os outros… quem são os outros? Os “outros” são aqueles com quem faço as minhas “tabelas”; os “outros” irão servir-me de degrau para me elevar e, se estão em nível superior, hão de ser bajulados para me guindar; os “outros”, com suas falhas, dão a oportunidade para que minhas qualidades brilhem. Os “outros”, no fundo, são instrumento útil da minha própria realização. Sem perceber, o egocêntrico serve-se dos outros e explora os outros. É um tipo de parasita. Obviamente, não se manifesta de forma direta.

Essa falta de maturidade humana é corrigida, muitas vezes, pela própria vida. A vida, afirmam alguns, sempre se encarrega de trazer de volta, para cada um de nós, tudo aquilo que somos e fazemos. É só uma questão de tempo.

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