E Aparecida ficou azul

Alvaro Siviero

05 de abril de 2013 | 10h58

Na última terça-feira, dia 02 de abril, a Basílica Nacional de Aparecida recebeu pela primeira vez um concerto sinfônico, abraçando o Dia Mundial do Autismo. O piano estava localizado exatamente abaixo dos pés da Padroeira do Brasil. Uma emoção só. Em 2012, por ocasião da mesma data, havia sido realizado um recital no topo do Corcovado, aos pés do Cristo Redentor onde, do piano, eu contemplava a maravilha de um mar sem fim encontrando-se com o azul infinito do céu . O azul foi definido como a cor símbolo do autismo, porque a síndrome é mais comum nos meninos, em proporção 4:1 (4 meninos para cada 1 menina).

Ontem, durante um almoço com alguns médicos, dividi minha emoção. Enquanto falava-lhes sobre a beleza do trabalho desenvolvido pela ONG Autismo&Realidade, um deles, médico influente, explicou-me que autistas são pessoas extremamente inteligentes, criativas, evoluídas ao seu modo, mas em um padrão não enquadrado no que chamamos de normalidade. E foi adiante: “Em todos nós há momentos em que nos comportamos em um padrão anti-social. Uma pessoa que, por ira, levanta o tom de voz está se desenquadrando, e sua atitude é vista com reservas”. O desafio está em criar canais de sociabilização, em descobrir modos de trazer esses outsiders para os padrões de relação. Fiquei pensativo. Todo artista, quando tomado por sua arte, também se desenquadra. O artista vê o mundo de um modo diferente. O artista enxerga o que o homem comum é incapaz de ver.

Um gênio, em seu momento de inspiração, perde controle de si mesmo. É como se a inspiração – artística, científica, entre outros – fosse maior que ele mesmo. E o dominasse. Lembrei-me de Beethoven e de suas diversas casas que visitei em Viena. Sim, diversas. O temperamento briguento e pouco sociável o mestre alemão o forçavam a mudanças frequentes de domicílio. Beethoven, por preconceito ou inveja, não era visto como normal.

Lembrei-me também do contundente depoimento de Júlia Balducci de Oliveira, após lançamento do DVD “Em busca de um novo caminho”, na faculdade de Medicina USP: “quando tenho a chance de observar como se comportam muitos que se denominam “normais”, repenso se vale a pena ser normal”.

Fica abaixo o link de matéria veiculada e replicada em diversos jornais da Globo, com a participação da Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, sob regência do maestro Vantoil de Souza

http://globotv.globo.com/tv-vanguarda-sp/bom-dia-vanguarda/v/santuario-nacional-recebe-concerto-sinfonico/2495256/

 

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