Don Giovanni: um basta!

Alvaro Siviero

19 Setembro 2013 | 10h32

 

Tem gente que acha bonito ser feio.  E tem gente que traveste o feio de bonito. Não falo aqui somente de estética física, mas de estética na personalidade.  Ressentimentos, roubos, traições, orgulho, invejas, vinganças, etc, são cicatrizes deixadas na alma por aqueles que optam pelo errado e que, infelizmente, são conceitos vendidos como sinônimos de Amor à Vida (alguma semelhança?). A sociedade, anestesiada, engole tudo goela abaixo. “Não seja preconceituoso, engole tudo, abra a boca!”, insistem alguns. Mas o feio é feio. E o belo é belo. Não sejamos tontos.

Don Giovanni (Don Juan) é um jovem libertino, de alma murcha e coração esvaziado, que externa maquiagem de feliz.  Busca na sedução de mulheres sua satisfação e, como esperado, mata sua sede com água do mar. Um círculo vicioso. Uma espiral descendente.  A sólida e interessante versão “vampiresca” adotada em exibição no Theatro Municipal de São Paulo até o próximo dia 22 (o sangue feminino como fonte de vida – pontos positivos para a identidade visual escolhida), encontra em Zerlina, Donna Elvira, Donna Anna, Don Ottavio e Masetto o freio para sua compulsão. Um freio indesejado. A aterrorizante aparição final do espectro do Comendador leva Don Giovanni ao castigo esperado: o eterno. Quem  faz o mal, acaba mal. E Mozart encontra nesta trama o canal para criar música igualmente eterna.

A encenação traz o que de melhor pode existir em termos de cenografia e figurino. O programa, denso de conteúdo e ricamente ilustrado, mostra o que está por vir. Primeiro mundo. O barítono brasileiro Leonardo Neiva, no papel principal, foi o destaque, não por estar no papel principal, mas por sua enorme versatilidade, potência sonora e presença cênica. Roubou a cena que deveria ter sido do barítono italiano Nicola Ulivieri, inicialmente previsto para a récita, mas que por problemas vocais não pode assumir o papel neste dia. A mudança on the spur of the moment, causou atraso de 35 minutos para o início da récita, aguardados pela platéia de modo elegante. Substituição semelhante, dias antes, havia ocorrido com o personagem Leporello (Davide Luciano) que se curava de uma faringite.

No entanto, a reincidência (novamente!) de um problema técnico no primeiro ato comprometeu a apresentação. João Luiz Sampaio, na edição impressa de ontem (leia aqui), revela com precisão os bastidores de uma possível sabotagem. Desnecessário afirmar que esta nova interrupção (escrevo após a matéria de João Luiz Sampaio por ter novamente presenciado o fato) quebrou o fio da trama e, quando reiniciado o primeiro ato, muitos retardatários da plateia funcionaram como motor de desconcentração para o elenco. Conversei com músicos, com personalidades do meio artístico ali presentes e com funcionários. Uma senhora, da limpeza, comentava que não poderia voltar para casa naquele dia: após a meia noite não havia mais transporte público.

Se a sabotagem se confirmar, quem é que sai ganhando com tudo isso? Ninguém. Um tiro no pé. A arma dos evoluídos é o diálogo e o preparo de gestores é saber ouvir e conciliar diferentes pontos de vista. Força bruta e boicote nunca funcionaram. E, neste momento de crescimento lírico na cidade de São Paulo (onde o Theatro Municipal é premiado com liderança no quesito Sala de Concerto, também por sua sofisticação e acústica), como ensina a ópera, quem faz o mal acaba mal. E que o espectro do Comendador apareça igualmente a essas pessoas e seja guia.