De-cadência

De-cadência

Alvaro Siviero

18 de maio de 2016 | 11h07

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Em tempos de decadência política, social, moral, ética, cultural, educacional, entre tantas outras, embates de crescimento apresentam-se como solução. Explico-me: quando não se pode descer mais, a única solução é subir. E subir pelo esforço.

Na literatura musical, o gênero denominado Concerto é aquele que convida músicos (um pianista, violinista, flautista, clarinetista, violoncelista, entre muitos outros, ou até mesmo combinações de alguns deles) a exporem, com invejável dose de esforço que arrebata a platéia, a beleza e as capacidades de cada um desses instrumentos. Recai sobre os ombros desses músicos convidados a enorme responsabilidade de travar um diálogo musical, sob o comando do maestro, entre seus instrumentos e a orquestra. Não há quem os defenda. Estão sós (não por acaso recebem o nome de solistas). É pura adrenalina. Os acertos (e erros, se houver, Deus queria que não) dos músicos solistas sempre se tornam mais evidentes ao público: não há como se esconder atrás de ninguém. Pois bem, um dos pontos altos na execução de um concerto encontra-se na execução da cadência (em italiano cadenza), aquele momento em que toda a orquestra se silencia e dá liberdade plena e espaço abundante para que o solista faça suas pirotecnias e malabarismos, às vezes em elevado grau de dificuldade, mostrando toda sua capacidade e domínio sobre seu instrumento. Um “show” a parte que exige crescimento, convencendo os presentes sobre a verdade musical da obra que está sendo interpretada. É subir ou subir. Não há outra opção.

Dentre os concertos escritos para piano, algumas cadências me impressionam pela extrema dificuldade técnica, musical, bem como sua extensão. Pura maluquice. Em especial, faço aqui referência à cadência de 4 concertos (3 para piano e 1 para violino): a cadência do Concerto n.2 para piano e orquestra em sol menor, Op.16 de Prokofiev, Concerto n.3 para piano e orquestra em ré menor, Op.30 de Rachmaninov, Concerto n.2 para piano e orquestra em sol maior, Op.44 de Tchaikovsky e Concerto para violino e orquestra em ré maior, Op.35 de Tchaikovsky. Observem como toda a orquestra se silencia, presenciando esses momentos de pura ascensão. Assistam ao furor de cada uma delas e depois me digam se eu não tenho razão…

Preparo nestes dias a cadência do Concerto n.1 para piano e orquestra em dó maior, Op.15 que realizarei em minha próxima turnê na Holanda. Fiquem na torcida. A subida não está fácil!

Prokofiev – Concerto n.2 para piano e orquestra em sol menor, Op.16 (cadência entre os minutos 5:55 e 9:55, brilhantemente executada pela pianista solista Yuja Wang)

Rachmaninov – Concerto n.3 para piano e orquestra em ré menor, Op.30 (cadência entre os minutos 10:55 e 13:30)

Tchaikovsky – Concerto n.2 para piano e orquestra em sol maior, Op.44 (cadência entre os minutos 10:50 e 15:05)

Tchaikovsky – Concerto para violino e orquestra em ré maior, Op.35 (cadência entre os minutos 9:55 e 12:25)