Cultura Artística com Orchestre National de Toulouse: uma aula de hipnose

Alvaro Siviero

17 de maio de 2012 | 11h45

A passagem da Orchestre National du Capitole de Toulouse pela capital paulistana deixou rastro. E profundo. São como esses sustos que nos alertam a preparar decisões de melhoria ou mudança. As duas apresentações da orquestra (15 e 16 de maio), com repertórios intencionalmente diversificados, ratificaram a intenção do grupo em mostrar sua excelência em planícies musicais tão diversas como Berlioz, Ravel, Liszt e Mussorgsky. O repertório francês da apresentação do dia 15 transformou-se, ontem, em manancial cristalino de música eslava. Era música jorrando por todos os lados. E a platéia, encharcada, acompanhava hipnotizada cada compasso da execução. Não exagero. Fraseado perfeito, ataques precisos e unidade sonora raramente presenciados. Os músicos todos se divertiam enquanto faziam música. Violinistas das últimas fileiras do naipe se jogavam em seus instrumentos como se fosse a última vez. Tudo isso sob o comando seguro, preciso e altamente musical de Sokhiev (foto acima). Era como se a Sociedade de Cultura Artística relembrasse a todos os presentes que, de fato, estamos em ano de centenário.

O pianista Bertrand Chamayou (abaixo), solista convidado das duas apresentações, consciente ou não do fato, tinha diante de si o fantasma Argerich. Explico melhor. O imaginário coletivo, apoiado na perfeição e energia com que o fenômeno Martha Argerich fagocita os dois concertos interpretados pelo solista oriundo de Toulouse – o Concerto de Ravel e o Concerto n.1 de Liszt – fez com que, de alguma forma, essas obras se transformassem quase em propriedade da pianista argentina. Durante a apresentação de ontem, enquanto Chamayou assombrava os presentes, tive a clara impressão de que o reinado Argerich não deveria ser absoluto. Em realidade, somente a música deve ser absoluta. O entrosamento musical entre regente e solista chamava a atenção: quase um uníssono. Quando a orquestra, ao final de sua apresentação, soava os últimos acordes de A Grande Porta de Kiev, a platéia alvoroçada se colocava unanimemente de pé. Mesmo com o impecável e sensível Liszt que Chamayou ofereceu como bis, a orquestra brindou os presentes em dose dupla, como que pavimentando as propostas musicais de suas duas apresentações: a Abertura da ópera Carmen, do compositor francês Bizet, e a Dança Russa, da Suíte Quebra-Nozes, do russo Tchaikovsky.

Após o concerto, travei longa conversa com o solista e maestro. Tudo muito amistável. Éramos músicos conversando sobre tudo: sobre a sala de concertos, sobre as dificuldades técnicas de execução, sobre carreira. Enquanto a conversa discorria, em meio a risadas e conteúdos mais profundos, percebi que estava diante de verdadeiros artistas, daqueles que vale a pena conhecer: gente simples, com clara consciência e conhecimento de serem meramente um instrumento. Refiro-me a conhecimento prático, não teórico. Gente. Gente a serviço. Auto-promoção virou coisa do passado. Sokhiev, que agora se prepara para assumir a Sinfônica de Berlim, quando indagado sobre suas percepções a respeito do público paulistano, não pensou duas vezes ao responder: que público caloroso! Chamayou, mesmo desconhecendo o que Sokhiev havia dito, mas novamente em uníssono, afirmou o mesmo.

E esse calor era resposta ao que o público havia recebido.

 

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