Cosméticos e estética do caráter

Alvaro Siviero

07 de outubro de 2013 | 13h19

Cremes anti-age, esfoliantes e hidratantes fazem parte da vida de pessoas preocupadas com a eterna juventude. Alguns, em ímpeto estético mais desenfreado, recorrem também a bisturis e cirurgias. Na garupa deste interesse, a indústria dos cosméticos cresce. Cresce muito. Amanhã, em evento fechado na Sala São Paulo, muitas das principais empresas de beleza do país concorrerão ao primeiro Prêmio ABIHPEC – Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Entre as finalistas estão Eudora, Natura, O Boticário, L’Óreal, Avon, Mahogany, Colgate, entre outras.

Realizarei o recital de abertura desta premiação que, em vertente complementar, incluirá o produto de meu trabalho que é igualmente o Belo. Não posso deixar de registrar minha surpresa e alegria. Surpresa, das boas, pelo interesse dos organizadores em mostrar que a beleza estética – como cara e coroa de uma mesma moeda – encontra seu eco em uma beleza mais profunda do ser humano. Alegria por ser a Música este motor de enriquecimento, interiorização e transformação. Uma profunda tomada de consciência de que a beleza – que muitas vezes é reduzida meramente a uma textura ou cor da pele – está igualmente inserida no brilho de um olhar, na capacidade de um sorriso verdadeiro e aberto e, acima de tudo, em qualidades humanas que sempre são reflexo de uma personalidade bem acabada. Uma visão mais realista do ser humano. Já dizia o poeta italiano Dante Alighieri que os olhos são a janela da alma. Há pessoas elegantes, de fenótipo trabalhado que, após minutos de conversa, revelam somente esta maquiagem epidérmica. Pessoas de conteúdo questionável. Pessoas pouco interessantes.

Michelangelo, certa vez, afirmou estarem suas magnificas esculturas já finalizadas dentro do grande bloco de mármore a ser trabalhado. Seu dever era retirar o mármore excedente, o que sobrava. E surgem, assim, monumentos como Moisés, David e Pietá. O mesmo ocorre com cada um de nós, não é? A obra de arte existente dentro de cada um aguarda esses bons golpes do martelo e do cinzel que retirarão o que estorva. Para a premiação de amanhã, os “entendidos” da beleza escolheram utilizar a música de concerto – mais precisamente o piano – para esse processo de conscientização de que o embelezamento, o desembrutecimento humano, tem suas raízes em algo mais profundo do que o mero formato de um rosto. É a estética do caráter.

Meu reconhecimento aos promotores dessa visão, tão necessária a um mundo cada dia mais epidérmico.

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