Concertos internacionais e a plástica do umbigo

Concertos internacionais e a plástica do umbigo

Alvaro Siviero

17 de outubro de 2014 | 10h42

Se Maomé não vai a Meca, Meca vem até Maomé. A frase resume o esforço brutal empreendido para a realização de um concerto internacional. A iniciativa é louvável por abrir novas visões e modificar parâmetros. Comparar-se para aprender, para crescer, é sempre salutar. O mesmo ocorre, em outra ordem de grandeza, em uma viagem internacional: nossos paradigmas se reposicionam. Voltamos transformados. Nunca mais seremos os mesmos.

Presenciar um concerto internacional nos faz enxergar, muitas vezes, que nossos valores culturais não são, por serem brasileiros, inferiores aos internacionais. Há muita gente boa por aqui. No entanto, e agora vem o melhor, o mais interessante é perceber como se acalmam os impulsos de alguns músicos ou grupos sinfônicos que, com complexo de galo, talvez por sentirem-se referência, acabam ganhando lucidez e bom senso diante de instituições como a Filarmônica de Berlim ou a Sinfônica de Chicago, diante de músicos como Martha Argerich ou Krystian Zimerman, ou de instituições de ensino como a Escola Superior de Música de Viena ou a Juilliard School de Nova York. A lucidez da humildade e da verdade. Muitas vezes a grama do vizinho é, de fato, mais verde. A exigência lá fora é muito elevada. Neste sentido, temporadas internacionais de concerto sempre são portas abertas que chacoalham gente deslumbrada com o próprio umbigo.

A Sociedade de Cultura Artística, promotora de temporada de concertos internacionais em SP, trará em 2015 diversos pesos pesados da música de concerto (vide programação abaixo). Serão dez atrações diferentes, de abril a outubro, incluindo os mais diversos tipos de formação e de repertório.

Os concertos dos grupos orquestrais da Academia Bach de Stuttgart interpretando dois monumentos da música barroca – o oratório O Messias, de Handel, e a Missa em Si, de Bach – , da Orquestra do Festival de Budapeste sob a regência de Iván Fischer e da excepcional Orquestra Sinfônica de Chicago sob a batuta do italiano Riccardo Muti mostram que a proposta é para tirar o fôlego dos presentes. A presença do duo Viktoria Mullova-Katia Labèque e de Jordi Savall será coroada com o recital, em junho, do aclamado pianista russo Evgeny Kissin, previsto para a temporada 2012, cancelado devido à inesperada morte de seu pai. O pianista recebeu a notícia do ataque cardíaco de Igor Kissin quando já se encontrava no Rio de Janeiro. Toda a turnê sul-americana do músico foi cancelada.

 

 

TEMPORADA

6 e 8 de abril – Academia Bach de Stuttgart &GächingerKantorei; Hans-ChristophRademann, regência

28 e 29 de abril – Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen; PekkaKuusisto, violino

e 6 de maio – Pierre-Laurent Aimard, piano com sua cultura musical enciclopédica, incluindo Bach, Chopin, Ligeti e Kurtág

26 e 27 de maio – Trio Atos

14 e 17 de junho –EvgenyKissin, piano

29 e 30 de junho – Orquestra do Festival de Budapeste sob regência de Iván Fischer. Miah Persson, soprano e Alexander Toradze, piano são os solistas convidados.

2 e 4 de agosto – Quarteto Takács

1 e 2 de setembro – Jordi Savall e Hespèrion XXI interpretando música da Espanha, das Américas e das tradições otomana, armênia, grega e sefardita.

29 e 30 de setembro – ViktoriaMullova, violino – Katia Labèque, piano

24 e 25 de outubro – Orquestra Sinfônica de Chicago sob a regência de Riccardo Muti, interpretando a Sinfonia n.5 de Beethoven, a Sinfonia n.1 de Mahler e a Sinfonia n.6 de Tchaikovsky

 

Informações: de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h,  no telefone (11) 3256 0223

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