Concertgebouw em noite redentora

Alvaro Siviero

25 de junho de 2013 | 16h33

Toda magia possui características ritualísticas e cerimoniais que nos colocam em contato com aspectos ocultos do Universo e da Divindade. O que é mágico exerce fascínio.  A magia (sabedoria, na etimologia persa) enfeitiça. E foi exatamente isso o que ocorreu com a passagem da Orquestra Real do Concertgebouw pela Sala São Paulo, ontem, em sua estréia. Foi mágica. Dostoievsky, em sua obra O Idiota, afirma que o mundo será salvo pela Beleza. Os momentos de pura redenção presenciados ontem, transformaram o palco da Sala São Paulo em um Calvário que conduziu os presentes a uma profunda tomada de consciência de que as coisas importantes da vida não são necessariamente coisas.

A Abertura A Megera Domada, do compositor holandês Johan Wagenaar, de caráter fortemente dançante, vibrante e alegre, conquistou imediatamente os presentes. Já nos minutos iniciais do concerto tínhamos a sólida impressão de que a Sala São Paulo não seria capaz de albergar a erupção sonora daquela que, pela revista britânica Gramophone, foi considerada a maior orquestra do mundo. Sob a batuta de Mariss Jansons os ataques dos naipes eram precisos, de sonoridade encorpada. Sincronismo e força interpretativa, de fato, incomuns. Os aplausos ardidos após tão curta obra (7 minutos), comprovavam minha impressão: a platéia já havia sido hipnotizada.

A seguir, Denis Matsuev, solista da noite, com passadas largas, seguras e imponente presença cênica, entrega-se à Rapsódia sobre um tema de Paganini, Op.43, uma das diversas obras plasmadas sobre uma célebre composição do violinista italiano Nicolo Paganini, o Capricho 24. A versão de Rachmaninov, para piano e orquestra, ganhou matizes insuspeitados. Durante a variação XIII – a obra consta de 24 variações – surgiu a impressão, quase um efeito ótico, de que Matsuev era maior que o piano. Em realidade, Matsuev, piano e música tornaram-se uma única coisa.  Um dos principais pianistas da atualidade. Duas pérolas, como bis: a dificílima transcrição de Ginsburg sobre o tema “largo al factotum”, da ópera Barbeiro de Sevilha,  e Music Box, do compositor van Liadov.  

A Sinfonia n.5 em mi menor, Op.64, de Tchaikovsly fechou o programa da noite. Composta em 1888, recebeu sua estréia em São Petersburgo tendo o próprio autor como regente. Seu tema recorrente, em todos os movimentos da obra, revela as dores, conflitos íntimos, carências amorosas e afetivas, reflexos da profunda instabilidade emocional que levou o compositor, como afirmado por diversos biógrafos, ao suicídio. Os quase 50 minutos de música, seguindo as leis da Física Quântica, ganharam efeitos relativísticos, transformaram-se em segundos. O tempo, perdendo seu parâmetro de referência, não fluía. E o público, como o tempo, se imobilizou.

Após Rachmaninov e Tchaikovsky, como bis, a Concertgebouw ofereceu a todos, para contraste absoluto, quase uma pasteurização, uma impecável e galante versão do Minueto de Boccherini. Noite memorável.

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