Claudio Abbado homenageado pelo Scala de Milão

Alvaro Siviero

29 de janeiro de 2014 | 11h27

27 de janeiro de 2014. O Teatro alla Scala está vazio, mas as portas estão abertas. No interior, a Filarmônica do Scala é conduzida por Daniel Barenboim na Marcha Fúnebre (Adagio assai) da Sinfonia n.3 de Beethoven. As mais de 8.000 pessoas, como de costume quando morre um diretor musical, do lado de fora, enfrentando baixas temperaturas, ouvem comovidas, de pé , a despedida final que o La Scala de Milão prestou ao maestro Claudio Abbado, à frente deste teatro por 18 anos (1968 a 1986).

Muito se falou sobre os feitos de Abbado. Sua competência extrapolou fronteiras. No entanto, a comoção que se criou joga luz sobre uma outra vertente tão ou mais importante que a do músico competente: a do ser humano. O coração humano é mais facilmente fisgado por aqueles que dão amor. Nossos sentimentos se vinculam mais rapidamente àqueles que nos rodeiam e se interessam por nós. Amizades não se consumam em ambientes fechados, egocentrados, protocolares, formais. Um profissional competente não é necessariamente um profissional amado, respeitado ou querido.  E foi nesta seara que o gentiluomo milanês Claudio Abbado mostrou porque era tão amado.

Após a morte de Karajan, em 1989, Abbado assumiu a Filarmônica de Berlim encontrando-a no estado em que havia deixado seu predecessor (o estilo ditatorial de Karajan havia deixado muitas marcas, algumas profundas…). E Abbado foi colocando, pouco a pouco,  o seu modo de liderança, amável e respeitoso, dialogante e criativo. Concentro-me em 3 depoimentos:

1. Georg Faust (cellista Filarmônica de Berlim): “Procuramos alguém que fosse capaz de dar novo rumo à orquestra. Para nós, o mais importante foi sua personalidade. Buscávamos alguém disposto a escutar e que não dissesse “Façam como digo. Eu sou o chefe”. Um dos pontos altos de Abbado é sua capacidade de não involucrar-se em conflitos. Descobrimos com ele que tratar alguém de igual para igual não é sinônimo de perda de autoridade. Ele mantém sua autoridade e a tem em grau máximo quando está regendo”.

2. Hansjorg Schellenberger (oboísta Filarmônica de Berlim): “Após 38 anos com Karajan, uma mudança de enfoque interpretativo e musical supõe sempre um certo transtorno. Abbado quase nunca diz: “Isto faremos deste modo”. Seu modo habitual já se tornou célebre entre nós da orquestra, onde ouvimos: “Seria bom, seria melhor…”. Ele nos indica o rumo geral, sempre com extremado respeito, reflexo de seu ajuste íntimo como pessoa. Suas decisões nunca são unilaterais. E é esta a forma como ele trabalha com a orquestra: recebe e, ao mesmo tempo, dá. Não trata de impor suas ideias e, se algum de nós julga ter uma ideia melhor, ele nos convida a cordialmente expressá-la”

3. Mark Templeton (trombonista Orquestra Gustav Mahler): “Ele é o chefe. Mas para os músicos da orquestra é simplesmente Claudio. Não lhe agrada que o chamem de maestro. Desde nosso primeiro encontro, em 1996, surpreendeu-me sua serenidade, amabilidade e gentileza com os demais. Não se acha uma estrela, não parece ter ego. Ele simplesmente desfruta do que faz”.

A morte nivela as pessoas. Morre o rico, o pobre, o bonitão, o poderoso, o famoso, o desconhecido. Morre quem crê. Morre quem não acredita (em que creem os que não creem?). Ela não deixa de ser um mistério. O legado que deixarmos  -mais contundente quanto mais humano e virtuoso for – será a nossa biografia. A experiência mostra que a busca mal entendida de sucesso, glamour ou notoriedade causam efeito inversamente proporcional. Claudio Abbado não escreveu sua biografia nos palcos, ou em uma estrela na calçada da fama de Holywood, mas no coração de milhares de pessoas, num dia a dia aparentemente escondido, mas repleto de luz. Fica o exemplo.

“Já viste numa tarde triste de outono caírem as folhas de uma árvore? Assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia a folha caída serás tú”.

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