China: a Lei da oferta e procura na música

China: a Lei da oferta e procura na música

Alvaro Siviero

21 de abril de 2015 | 19h47

China

Conquistou-me o vídeo de uma criança asiática ao piano. Coisa de rede social. Filmado provavelmente pelo pai, o sorriso desarmado da criança exalava simplicidade e alegria, ingredientes fundamentais de toda boa música. O registro acabou caindo nas graças da produção de um desses programas talkshow americanos, que acabou por convidar o garoto a uma participação. Comparei os videos e, para minha surpresa, devo confessar, preocupou-me a mudança ocorrida. Encontrei um outro garoto, muito diferente daquele que me cativou.

 

Produtos comerciais invadem o mundo de roldão. É muito de tudo. No campo artístico, o pianista Lang Lang e sua conterrânea Yuja Wang, para citar alguns exemplos, são provas vivas de talentos extraordinários decorrentes dessa abundância da oferta asiática. Todos eles em busca de um lugar ao sol. Discutível é, no entanto, as armas utilizadas neste jogo de sobrevivência onde, muitas vezes, apela-se ao show business, ao glamour e a artifícios equivocados que, quase sempre destituídos de conteúdo, buscam valorizar mais o artista em detrimento da própria música. Neste jogo do vale-tudo, em atitude muito semelhante a programas de auditório da TV brasileira, rebaixa-se o nível ao meramente publicitário. Ou até mesmo ao hormonal.

No campo artístico, qualquer competitividade verdadeira, como é de se esperar, sempre caminha de mãos dadas com a verdade artística, que elege e valoriza quem é capaz de aliar sua qualidade técnica à competência humana. Aqui, o artista entende-se instrumento, uma espécie de envelope portador de poderosa mensagem. Quando, por despreparo humano (não é má vontade), um “artista” (assim mesmo, entre aspas) instrumentaliza a música, a si mesmo e sua plateia como forma de afagar um desejo de notoriedade, inevitavelmente desvia-se de sua verdadeira vocação: a de transformador. A música converte-se em negócio, a platéia em claque e arte em exibicionismo vazio.

Não podemos culpar o jovem garoto pela despropositada formação que recebeu. Não faz sentido a atitude de estrelismo que adotou. Uma criança – símbolo da pureza e transparência – cativa justamente por ser assim. Qualidades humanas cativam. Como toda criança, que nunca brinca para os outros, uma performance verdadeira não busca a aprovação “dos outros”. Seu conteúdo é autosuficiente. Esse é o artista bem sucedido. Nada é instrumentalizado. Surpreendentemente, uma rápida busca no Google, inclusive no mesmo talkshow mencionado, revela a existência de muitos outros “child prodigy” (sim, novamente entre aspas) que se comportam como essas ondas do oceano que sobem, descem e desaparecem. É assim mesmo: desaparecer é a única opção de quem optou pela artificialidade. Oxalá esse garoto encontre sua verdadeira vocação e entenda qual o propósito de quem dedica sua vida à música. Aí sim, apesar dos pesares, haverá espaço para a eternidade. Porque a música é eterna.

Tendências: