Centro Cultural São Paulo e a democratização da música

Alvaro Siviero

03 de março de 2012 | 18h23

Apreciar música clássica não é elitismo. A boa música é para todos. Por isso, entre outros motivos secundários, a iniciativa e interesse da prefeitura da cidade de São Paulo em promover, muito provavelmente, a que é a maior série de música de câmara da cidade (atrevo-me a arriscar do país) em um de seus maiores espaços para cultura: o Centro Cultural São Paulo. São mais de 80 concertos por ano.  Todos gratuitos. E o que talvez poucos saibam é que sua biblioteca possui uma das mais vastas coleções de partituras. Já encontrei muita coisa por lá que não encontrei em local algum.

A vocação democrática do espaço aparece tanto na sua geografia, fundindo seus corredores com as calçadas da rua e até mesmo com a estação do metrô Vergueiro, quanto pela diversidade e quantidade de público. Gente ali é o que não falta. Há pessoas em animada conversa nas cafeterias, outros concentrados no estudo individual (muita gente jovem), outros mergulhados no silêncio da boa leitura em algum dos muitos espaços das amplas bibliotecas. Já outros, em um saguão lateral, praticam com fúria o street dance. Tudo muito natural, orgânico. Sem muito esforço, o CCSP acaba se transformando em verdadeiro celeiro de público novo para a música e para a cultura como um todo.

O novo curador de música clássica do CCSP – Dante Pignatari – é incisivo ao demonstrar seu interesse em democratizar a boa música. E mesmo tendo sido contratado faz pouco já começou a mostrar para o que veio. Devido ao aniversário de 30 anos da instituição que será comemorado em maio deste ano (muitas reformas estão sendo anunciadas), a programação de música erudita foi transferida para um espaço alternativo, a Praça das Bibliotecas. As séries também mudaram de nome e de horário: Domingo na Praça, às 18h, e Terça na Praça, às 20h. Pignatari, que já dirigiu diversas séries de concertos promovidos pela Caixa Econômica, Circuito Banco do Brasil, SESC, entre outros, buscará em sua gestão a valorização de novos talentos. As “antigas glórias”, como é razoável, devem ceder espaço para a nova força musical que floresce. É o ciclo da vida.

O ponta-pé inicial, amanhã às 18h, estará a cargo do violonista Gabriel Bianco, detentor de fulgurante carreira internacional. Vencedor de importantes concursos internacionais, o músico está sendo destacado pela imprensa como “o Glenn Gould do violão”. Sua temporada 2009-2010 contemplou mais de 50 concertos pelos Estados Unidos, Colômbia, México e Brasil. O programa a ser apresentado – com destaque para transcrições de sonatas para violino solo de Bach – é atraente e de grande responsabilidade.

Entre os desafios da gestão, a série se depara com a necessidade da aquisição de um piano de concerto. Uma sala de concerto sem piano, como sabemos, é como sala de estar sem sofá. Complicado. As tratativas para a aquisição do instrumento iniciaram-se faz meses, mas ainda não saiu do papel, apesar da boa vontade de alguns dos envolvidos. Outro aspecto, entre muitos outros que poderiam ser levantados, recai sobre as condições das salas pós-reforma: a necessidade de ar condicionado em perfeito e silencioso funcionamento, poltronas apropriadas, camarins compatíveis com o nível ao qual a série de propõe.

Mas o primeiro passo já foi dado. Resta-nos agora torcer para que cultura não seja encarada pelas autoridades competentes como despesa. Cultura é investimento.

Programação de março

Domingo na Praça

04 – Gabriel Bianco (violão)
Obras de Sor, Schubert, Bach, Turina e Regondi.

11 – Eduardo Abumrad e João Moreira Reis
(voz e piano)
Canções de compositores brasileiros do século XX.

18 – Trio Arqué (violino, violoncelo e piano)
Obras de Takemitsu, Hosokawa e Ravel.

25 – Liliane Kans (fortepiano), Alberto Kanji (violoncelo), Fábio Chamma (violino) e André Pretzel (viola)
Quartetos com piano de Mozart em instrumentos de época.

Terça na Praça

06 – Emmanuele Baldini e Juliana D’Agostini
(violino e piano)
Obras de César Franck, Nino Rota e Villa-Lobos.

13 – Antonio Del ClaroJosé Stanek e Marco Antonio Bernardo(violoncelo, gaita de boca e piano)
Obras de Guerra-Peixe e Astor Piazzolla.

20 – Adriana Bernardes e Antonio Eduardo
(voz e piano)
Canções de compositores brasileiros contemporâneos.

27 – Trio Syrinx (flauta, viola e harpa)
Obras de Ravel, Arnold Bax, Takemitsu e Debussy.

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