Carnaval dos Animais

Carnaval dos Animais

Alvaro Siviero

16 Fevereiro 2015 | 15h14

Carnival of the animals

Le carnaval des animaux, obra do compositor francês Camille Saint-Saens (divertidamente utilizada pela Disney no cartoon Fantasia), foi proibida de ser publicada em vida pelo próprio autor, temeroso de que ela arruinasse sua reputação de compositor sério. A peça composta para dois pianos e orquestra, sub-dividida em 14 partes, e escrita quando o compositor passava férias na Áustria (fevereiro de 1886 ), é uma verdadeira provocação, uma sátira musical que não se refere somente aos “animais” citados mas, igualmente, à caracterologia humana. Isso mesmo. Quem nunca conheceu gente “pavão”? Quem nunca se deparou com “raposas” (e das velhas)? Quem nunca esbarrou em um camaleão?

Os romanos, na sua paixão pelo belo e pelo autêntico, admiradores das expressões artísticas perfeitas e genuínas, não admitiam defeitos nas obras de arte. Por isso, quando um escultor falhava, dissimulava-se o defeito cobrindo a irregularidade com cera. Quando a estátua saía perfeita de suas mãos, aí sim, dizia-se que a obra estava completa, íntegra, autêntica, sine cera – “sem cera”. O homem sincero é, sempre, um homem sine cera. E são muitos os truques que podem ser utilizados para encerar a verdade:  as modas (você sabia que a moda da gola alta surgiu para encobrir um terrível defeito que Ana Bolena possuía no pescoço?), cosméticos, perucas, operações plásticas, sem falar nas omissões, exageros e meias-verdades.

O carnaval, sob a ótica do tripé samba-suor-cerveja, pode igualmente evidenciar a cera que muitos foliões depositam sobre suas diversas cicatrizes. Um anestésico que os faça sair fora da realidade, nem que seja por quatro dias. É a humilde atendente do serviço público que se transforma, durante esses dias, em princesa, rainha, ou fada. É o Zé-Pedreiro que se transforma em Luís XV. Mas o carnaval termina um dia, numa quarta-feira qualquer, e a atendente trocará seu vestido de princesa por um avental, e o Zé-Pedreiro deixará as calças de cetim brilhante para vestir aquelas outras, esbranquiçadas e gastas, com as quais ganha honestamente o pão de cada dia. A mesma cera – tudo em nome da alegria – encontra na farra da bebida e do sexo fácil a comprovação da ausência de sentido de comprometimento e verdade nos relacionamentos. Parafraseando Saint-Saens, surge o Carnaval dos Animalescos. Vende-se a casca. Como afirmou o filósofo Kierkegaard: “A tua função principal é a de te enganares a ti próprio, e parece que o consegues, porque a tua máscara é das mais enigmáticas”. Sem dúvida, a máscara é mais fácil de ser elaborada do que uma personalidade verdadeira. O recado do Le carnaval des animaux vai, sim, muito além do meramente musical.

Leões, galinhas, cangurus, tartarugas misturam-se nesta obra cômica. O Cisne – único trecho publicado, com permissão do autor, ainda em vida – ganha destaque no conjunto da obra (já presenciei a obra até em casamentos). O Finale (recolhido no vídeo abaixo elaborado pela Disney Studios) transforma-se em resumo dos elementos expostos durante todo o desfile dos animais. Os Pianistas – que está mais para Aprendiz de Pianistas, e que sempre me divertiu – carrega uma sutil e fina ironia, com seu claro recado àqueles que assim se denominam.

 

Catálogo completo da obra
0:05 Introdução e Marcha Real do Leão
0:34 Galos e galinhas
2:22 Hemiones (animais velozes)
3:56 Tartarugas
6:35 O elefante
8:17 Canguru
9:24 Aquário
12:04 Personagens de longas orelhas
12:50 Cuco
15:34 Aviário
17:04 Pianistas
19:38 Fósseis
21:21 O cisne
25:23 Finale

A Música é linguagem. Cabe a nós sermos capazes de ouvir o que não é dito. Divirta-se e… bom carnaval!